Por Marco Néo



Em fevereiro de 2017, após o fim das atividades do Black Sabbath, Ozzy garantiu aos fãs que aquele não seria o fim para ele. De fato o vocalista manteve-se ativo nos palcos em 2017 e em 2018, trazendo de volta para sua banda, além dos já fixos Tommy Clufetos, Blasko e Adam Wakeman, o guitarrista Zakk Wylde. Em 31 de dezembro de 2018, o último show da turnê batizada “No More Tours 2”. Silêncio durante grande parte de 2019. Será que dessa vez o Madman realmente iria se aposentar?

Não. Depois do meio do ano boatos começaram a surgir dando conta da gravação de mais um disco solo. Aos poucos as novidades foram pipocando nos sites especializados. Ozzy havia gravado um disco novo com Chad Smith, dos Red Hot Chilli Peppers, na bateria, e Duff McKagan, do Guns’n’Roses, no baixo. A maior surpresa ficou por conta do guitarrista e produtor do disco: Andrew Watt.

Quem?

Andrew Watt é um multi-instrumentista e produtor norte-americano cujo currículo, apesar de sua pouca idade, é um quem-é-quem da música pop atual: como músico tocou/toca com gente como Justin Bieber e Post Malone. Como produtor, capitaneou trabalhos que vão de Cardi B e Camila Cabello a Lana Del Rey e Blink 182, além de uma carreira solo em que toca vários instrumentos e já abriu para The Cult e Jane’s Addiction, entre outros. Alguns fãs ficaram tão assustados que deixaram passar a participação do produtor como guitarrista da banda California Breed, formada por Glenn Hughes e Jason Bonham durante o hiato do Black Country Communion, o que poderia ser visto como um bom sinal.

A agora bastante difundida história: em meados do ano passado, Ozzy fez uma participação especial no último disco do rapper Post Malone, na música “Take What You Want”, e se deu muito bem com Andrew, produtor do trabalho. Bem a ponto de marcar de se encontrar em estúdio para “se divertir e ver o que acontece”, aproveitando para chamar os camaradas Duff e Chad. Tão bem a ponto de levar a brincadeira adiante e torna-la o décimo-segundo álbum solo de sua carreira, Ordinary Man, convidando mais gente, valendo aqui citar Slash, Tom Morello e Elton John.

O que temos a partir daqui é, obviamente, uma visão pessoal e subjetiva sobre um trabalho de uma lenda viva. Ozzy Osbourne certamente tem seu nome eternizado na história da música e não cabe a mim ficar repetindo pela enésima vez o que todos já sabem. Até por isso, por mais que seus últimos discos tenham sido vistos como inferiores em sua discografia, a expectativa sempre é grande quando é anunciado um trabalho novo de um dos pilares do Metal.

Ozzy Osbourne

A primeira e mais óbvia impressão ao se ouvir o trabalho é um clima um tanto quanto melancólico que o permeia. Ordinary Man soa como uma despedida de um homem que, excluídos sua aura e todos os mitos que o cercaram durante os mais de cinquenta anos de sua carreira, se vê como um ser humano comum, com erros e acertos, virtudes e defeitos. Um trabalho liricamente bastante introspectivo em diversos momentos, mostrando uma pessoa olhando para trás e fazendo uma avaliação daquilo que viveu. “My work here is done” (meu trabalho aqui está feito), diz a letra de “Goodbye”. Liricamente é um dos trabalhos mais profundos da carreira solo de Ozzy Osbourne. A contar por seu já frágil estado de saúde, é possível que estejamos vislumbrando o adeus de um dos gigantes do estilo.

A questão musical, por outro lado, fica vários níveis abaixo, infelizmente. A produção é limpa, sintética. Limpa demais, diga-se, para um disco de hard’n’heavy. Além disso, traz uma série de clichês da carreira do Madman que se espalham pelo disco e uma guitarra que soa equivocada. Andrew Watt escolheu um timbre que se pretende semelhante ao de Tony Iommi mas que fica deslocado ante a “limpeza” dos outros instrumentos. Esse “defeito” passaria mais despercebido se os riffs fossem um pouco mais inspirados, o que não é o caso. Por fim, houve um exagero nos efeitos usados na voz do Ozzy, que’ não raro soam como se fossem um teclado, não uma voz humana. Culpa do “autotune”, artifício de estúdio amplamente utilizado nos discos do pop/R&B atual para disfarçar eventuais desafinadas.

Depois de um começo mais acelerado com “Straight to Hell”, o que temos aqui é uma fórmula à qual a banda se agarrou com unhas e dentes. Salvo raras exceções, as músicas têm andamento lento, em vários casos baladas puras e simples, com arpejos simples tocados em guitarras semi-acústicas e “explosões de peso” nos coros. No final dos anos 1990 essa fórmula já dava sinais claros de saturação, é de se admirar que hoje em dia ainda tenhamos tanta gente se utilizando desse expediente.

Em meio a tanta mesmice, dá pra destacar a música título, outra que foi divulgada com antecedência. Outra balada. Muito boa, aliás, com participações do Elton John e do Slash. Só que é uma boa balada do Elton John, não a vejo com a cara do Ozzy. De resto tudo soa muito igual a ponto de não termos aqui músicas memoráveis. “Under the Graveyard” e “Today is the End” são das poucas que ao menos têm um refrão mais grudento. Pouco demais para alguém de tamanha estatura.

Mas não é só, como num comercial de facas “Ginsu” o pior foi deixado para o final. A última faixa oficial do disco, “It’s a Raid”, soa como um roquinho apresentado a bandas como Strokes e Jet e rejeitado por não atingir um nível mínimo de qualidade. Nesta temos a participação especial de Post Malone. E por falar no rapper, a famigerada “Take What You Want” aparece como faixa bônus nas versões digital e CD. Esse expediente nem é novo em se tratando do Ozzy, mas é difícil de acreditar que quem já compartilhou uma música como a “Hellraiser” se contente em encerrar o possível último disco da carreira com um rap que já nasceu datado. E tome mais um festival de “autotune” pra todo lado.

O álbum

E é isso, assim termina o mais recente disco de um dos maiores ícones da música pesada, aquele que bem pode ser o último trabalho do Ozzy em vida. Não é nenhuma surpresa, considerando que já há muito tempo o Madman deixou sua carreira fonográfica nas mãos de sua empresária e de produtores que não têm noção do que ele representa, mas é triste que a possível despedida de um dos frontmen mais carismáticos do estilo seja tão triste, em todos os sentidos.

Por fim, ressalto que é do Ozzy que estamos falando, então eu sugiro que você que leu esta resenha procure o disco, o ouça com atenção e tire suas próprias conclusões. Esta é apenas a minha impressão.

Faixas:
01. Straight To Hell (feat. Slash)
02. All My Life
03. Goodbye
04. Ordinary Man (feat. Elton John)
05. Under The Graveyard
06. Eat Me
07. Today Is The End
08. Scary Little Green Men
09. Holy For Tonight
10. It’s A Raid (feat. Post Malone)
11. Take What You Want (Post Malone feat. Ozzy Osbourne and Travis Scott)



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