Por Daniel Benedetti


Não gosto de escrever textos sobre álbuns na primeira pessoa, soando extremamente pessoal, mas este foi impossível.

Eu confesso que sou uma viúva do Max Cavalera. No começo da banda com o Derrick Green, eu apoiei, fui a vários shows, mas, com o passar do tempo, fui desencanando. Mal e porcamente acompanhei os últimos lançamentos do grupo.

Mas assumo que tomei um certo susto ao escutar este Quadra.

Quadra é o décimo quinto álbum de estúdio do Sepultura. Lançado oficialmente em 7 de fevereiro de 2020, pela gravadora Nuclear Blast, ele foi gravado no Fascination Street Studios, entre agosto e outubro de 2019, e teve produção do sueco Jens Bogren.

Andreas Kisser nas guitarras, Paulo Júnior no baixo, Derrick Green nos vocais e Eloy Casagrande na bateria formam o grupo brasileiro.

Quadra é um álbum conceitual baseado em numerologia, no número quatro e em seu significado, conforme descrito no livro Quadrivium.

O guitarrista Andreas Kisser explicou que o conceito do álbum é baseado no Quadrivium, que são os quatro assuntos, ou artes (aritmética, geometria, música e astronomia), ensinados após a aprendizagem do trivium. A palavra é latina, significando quatro caminhos (ou maneiras).

Com base nisso, a banda dividiu o álbum de 12 faixas em quatro seções de três músicas cada. A primeira é a de thrash metal, baseada no som clássico do Sepultura. A segunda seção é inspirada no som orientado à percussão que a banda explorou em Roots (1996). A terceira parte tem músicas mais progressivas inspiradas na faixa "Iceberg Dances" de Machine Messiah (2017), mas nem todas as faixas são instrumentais. O lado quatro apresenta faixas melódicas e de ritmo lento, semelhantes à música “Machine Messiah”.

Evidentemente, Quadra também é o termo português para quadra de esportes. Kisser afirmou que “todo mundo cresce em uma Quadra diferente, moldado por regras e definições. Todos somos determinados por esses conceitos, nossos relacionamentos, nossas carreiras. Nossa vida inteira”.

Isolation” abre o trabalho com um Thrash Metal endiabrado, remetendo ao período áureo do grupo, mas sem soar como uma cópia. A pancadaria continua ‘comendo solta’ na furiosa “Means to an End”. “Last Time” se apresenta com muito groove e a bateria de Eloy Casagrande imparável, além de apostar no guitarrista Andreas Kisser. “Capital Enslavement” começa com percussão que me remeteu a Roots, mas logo se desemboca em uma agressividade interessante.

A banda

Ali” é muito pesada, mas mais cadenciada, contando com outro bom trabalho de Kisser e vocais mais contidos de Green. A boa “Raging Void” possui muita técnica e uma áurea progressiva instigante. O nível continua bom na atraente “Guardians of Earth”, uma composição que oscila entre leveza e brutalidade de formas inteligente e cativante. “The Pentagram” é um instrumental em que a guitarra de Andreas e a bateria de Eloy ‘conversam’ de modo criativo.

Autem” possui um certo toque alternativo, mas consideravelmente mais brutal, e um ótimo refrão. “Quadra” é uma vinheta acústica que antecede a hipnótica “Agony of Defeat”, uma faixa atmosférica e com boa dose de espírito épico. Para encerrar o álbum, “Fear, Pain, Chaos, Suffering”, música com a participação de Emmily Barreto, da banda brasileira Far from Alaska.

Thom Jurek, do site Allmusic, escreveu: “Quadra é o primeiro álbum do Sepultura a manter-se em pé de igualdade qualitativa com sua trilogia clássica. Ele oferece uma série de músicas duras, carnudas e aventureiras, que abundam em força e emoção brutas. A produção de Bogren e a execução do Sepultura estão em perfeito equilíbrio. Além disso, Green apresenta uma performance que define sua carreira. É o primeiro álbum do Sepultura em décadas a ser favorável ao lado da produção clássica da banda”.

"Isolation", "Last Time" e "Means To An End" foram as escolhidas como singles.

Para compreender melhor o que o Sepultura traz neste Quadra, fui ouvir novamente (na realidade, escutar com atenção pela primeira vez) Machine Messiah, de 2017, que já é um trabalho mais consistente do conjunto, contando com elementos que são mais bem desenvolvidos neste disco.

Assim, Quadra é uma evolução natural de Machine Messiah, e, em outras palavras: melhor desenvolvido, mais bem construído e com suas canções ainda mais bem acabadas.

A guitarra de Andreas Kisser soa fluida, cada vez menos Hardcore e apostando em levadas progressivas, com riffs sólidos e solos muito bem colocados, sem soar genérica como na maioria dos trabalhos da fase Derrick Green. Mais que isso: ela abraça o Metal de forma consistente.

Derrick tem, de longe, sua melhor atuação vocal no Sepultura. Construindo melodias vocais mais contidas e apostando no grave, Green acerta em soar mais equilibrado, compensando a falta de potência tão aclamada (com razão). Mas o destaque maior é a monstruosa atuação do baterista Eloy Casagrande, soando totalmente destruidor.

Kisser, Green, Jr., Casagrande

Enfim, gostei de ver o Sepultura lançar um bom disco em Quadra, para mim, sem sombra de dúvidas, o melhor trabalho do grupo depois da saída do Max Cavalera - o quê, de fato, não é tão difícil assim. Mas, mais importante que isso, um álbum que resgata parte da credibilidade do conjunto e abre promissoras perspectivas para o futuro.

Formação:
Derrick Green - Vocal
Andreas Kisser - Guitarra
Paulo Jr. - Baixo
Eloy Casagrande - Bateria, Percussão
Convidados
Emmily Barreto - Vocal em 12
Renato Zanuto - Teclados, Orquestras e Arranjos de coro nas faixas 1, 4, 7 e 11

Faixas:
01. Isolation (Green/Kisser/Casagrande) - 4:56
02. Means to an End (Green/Kisser/Casagrande) - 4:39
03. Last Time (Green/Kisser/Casagrande) - 4:27
04. Capital Enslavement (Green/Kisser/Casagrande) - 3:40
05. Ali (Green/Kisser/Casagrande) - 4:12
06. Raging Void (Green/Kisser/Casagrande) - 3:57
07. Guardians of Earth (Green/Kisser/Casagrande) - 5:11
08. The Pentagram (Kisser/Casagrande ) - 5:20
09. Autem (Green/Kisser/Casagrande) - 4:06
10. Quadra (Kisser) - 0:46
11. Agony of Defeat (Green/Kisser/Casagrande) - 5:51
12. Fear, Pain, Chaos, Suffering (Green/Kisser/Casagrande) - 4:09



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