Por Daniel Benedetti e Marco Néo


O Alvorada Sonora continua a série de posts sobre os Melhores Álbuns lançados por ano, a partir de 1965. O ano de 1970 surge com algumas surpresas. A primeira é, sem dúvidas, seu campeão: Paranoid, do Black Sabbath. Outra é a ausência de Let It Be (Beatles) até mesmo dos 20 primeiros lugares, pois a banda dominou completamente as listas anteriores. Um ano intensamente disputado, com muitos discos memoráveis, propicia uma lista muito boa e com maciça dominância do Rock.

Outra novidade é a presença da equipe do site comentando os álbuns que atingiram o Top 10, sempre lembrando: os álbuns NÃO FORAM ESCOLHIDOS pela equipe e formam a lista através da nossa METODOLOGIA. Confira a lista e os comentários em mais um post incrível do nosso blog!


Alguns fatos históricos do ano de 1970

01 de Janeiro - Início da Era Unix
04 de Fevereiro - É fundada a cidade de Pripyat
11 de Março - O cônsul japonês Nobuo Okuchi é sequestrado por integrantes da Vanguarda Popular Revolucionária em São Paulo.
25 de Março - Presidente Emílio Garrastazu Médici assina o decreto-lei, que dispõe sobre a ampliação do mar territorial brasileiro de 12 para 200 milhas marítimas.
21 de Junho - A Seleção Brasileira de Futebol ganha a Copa do Mundo FIFA de 1970 conquistando o tricampeonato
10 de Outubro - Declarada a independência de Fiji.
24 de Outubro - Salvador Allende é confirmado como presidente da República pelo Congresso do Chile, tornando-se assim o primeiro chefe de estado marxista eleito democraticamente do mundo.
07 de Dezembro - O embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, é sequestrado por um grupo de militantes da Aliança Libertadora Nacional, no Rio de Janeiro.
Fim da banda de Rock The Beatles


A Lista



1º – BLACK SABBATH – PARANOID
(313 pontos – 12/13)

DANIEL: Fico feliz que os anos se passaram e a crítica musical reconheceu todos os méritos de uma obra revolucionária como Paranoid. Todos os conceitos apresentados na estreia do Black Sabbath são melhores desenvolvidos neste álbum, o qual finca os pilares e as fundações do nascente Heavy Metal. Seja pelo peso descomunal de faixas espetaculares como “War Pigs”, “Iron Man” e “Electric Funeral”, seja pela atmosfera aterrorizante muito bem representada pela atuação do vocalista Ozzy Osbourne, ou mesmo pela temática sobre a miserável condição humana como em “Hands of Doom”. Nenhuma banda soava assim antes. Em suma: o Black Sabbath criou o Heavy Metal e Paranoid é sua cartilha. Não seria meu primeiro lugar, embora seja merecido.


MARCO: Recentemente foi celebrado o aniversário de 50 anos do lançamento do primeiro disco, auto-intitulado, do Black Sabbath, que “oficialmente” inaugura o Heavy Metal. Pois bem. No mesmo ano foi lançado esse que, na minha opinião, é superior ao predecessor por uma larga margem. No geral, vão-se as longas jam sessions do primeiro disco, trocadas por músicas mais focadas e que dão o formato inicial ao Metal. Destaques evidentes: a sequência que se inicia com “War Pigs” e vai até “Fairies Wear Boots”.

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2º – NEIL YOUNG – AFTER THE GOLD RUSH (*)
(310 pontos – 13/13)

DANIEL: Neil Young abraça o Country e o Folk, une-os ao Rock, e constrói um álbum muito bonito e bastante sensível. Há faixas comoventes em After the Gold Rush como “Don't Let It Bring You Down”, “Only Love Can Break Your Heart” e “I Believe in You”. As minhas preferidas ficam com as mais roqueiras, “When You Dance I Can Really Love” e a belíssima “Southern Man”, a qual trata sobre a discriminação racial. É um álbum especial, merece Top 10, mas não penso que para pódio.


MARCO: Ao fazer uma breve pesquisa sobre o disco, vi que a resenha publicada na época pela revista Rolling Stone não foi lá muito lisonjeira. De certa forma não tiro a razão do crítico, as muitas músicas acústicas fazem o disco soar repetitivo e os arranjos simples trazem uma impressão de trabalho inacabado. Mesmo assim a “Till the Morning Comes” me agradou muito, já que bebe muito na fonte dos Beatles. As músicas elétricas, por outro lado, são bem melhores, “Southern Man” sendo o destaque evidente do disco.

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3º – CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL – COSMO’S FACTORY
(310 pontos – 13/13)

DANIEL: Somente a clássica “Ramble Tamble”, e sua magnífica qualidade ao flertar com a psicodelia, já valeria a entrada de Cosmo’s Factory nesta lista. Mas não é apenas isto: “Travellin’ Band” é espetacular, “Run Through the Jungle” é um Blues Rock magnético e os vocais de John Fogerty estão impecáveis na visceral “Up Around the Bend”. A ‘cereja do bolo’ é a versão matadora para “I Heard It Through the Grapevine”, com seus mais de 11 minutos. Disco espetacular!


MARCO: Assumidamente não tenho muito interesse pela música do CCR e não me lembro de ter ouvido este disco em especial. Começa bem, impressionando, com músicas com muita pegada, destaque para “Travelin’ Band”. No geral o disco traz um clima que remete ao rock’n’roll/rockabilly inicial dos anos 50, o que me agrada. Como sempre, temos aqui várias músicas conhecidas, “Up Around the Bend”, “Who’ll Stop the Rain” e especialmente “I Heard it Through the Grapevine”.

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4º – LED ZEPPELIN – LED ZEPPELIN III
(246 pontos – 13/13)

DANIEL: A melhor banda de todos os tempos em outro de seus discos essenciais. Led Zeppelin III apresenta o grupo em novas facetas, ousando novas sonoridades, mas sem abandonar – por completo – a fúria de seu antecessor. A banda abraça a suavidade do Folk em canções memoráveis como “Friends”, “Bron-Y-Aur Stomp” e “Tangerine”. Claro, há espaço para ‘rockões’ como “Out on the Tiles” ou verdadeiras pedradas como “Immigrant Song” e “Celebration Day”. Tudo isto é elevado ao máximo nível no magnífico Blues de “Since I've Been Loving You”, a qual conta com um solo espetacular de Jimmy Page. Não é o melhor disco do ano, mas é pódio com certeza!


MARCO: E por causa deste disco o Zeppelin deixou de ser apontado como a primeira banda de Heavy Metal da história. Depois de dois discos mais, digamos, barulhentos, LZIII apresenta, depois de um início estrondoso com “Immigrant Song” e sons mais pesados como “Celebration Day” e “Out on the Tiles”, uma sonoridade mais folk e tranquila, mais de acordo com os padrões da época. Só que a categoria dos ingleses de Birmingham impediu que esse disco fosse apenas “mais um”. Terceiro clássico indiscutível na sequência.

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5º – THE STOOGES – FUN HOUSE
(243 pontos – 11/13)

DANIEL: Fun House, segundo álbum do The Stooges, é um disco importante e muito influente e, ao lado de bandas como o MC5, pode ser apontado como influência direta para o Rock que surgiria na segunda metade dos anos 70. Girando em torno da temática hedonista, há uma clara opção estilística por uma sonoridade mais crua e rústica, resultando em faixas bem legais como “Down on the Street” e “T.V. Eye”. Não curto muito o emprego do saxofone em algumas músicas, mas não chega a me incomodar. Bom trabalho.


MARCO: Apenas sete músicas e um rockão pra lá de primitivo. Fun House claramente destoa de todos os outros trabalhos nesta lista, apresentando o exemplo mais bem acabado do proto-punk feito nos Estados Unidos na primeira metade dos anos 1970, músicas que cortam o excesso de arranjos complicados que cada vez mais caracterizariam o rock mainstream do período, optando pela simplicidade do que foi feito na década anterior. Cinco anos depois os Ramones pegariam esta ideia e a levariam ao extremo, dando início ao punk rock. 

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6º – JOHN LENNON – JOHN LENNON/PLASTIC ONO BAND
(242 pontos – 11/13)

DANIEL: Só sendo muito beatlemaníaco para votar em um disco desses como melhor de um ano tão disputado como 1970. Algumas faixas eu realmente odiei, como “Mother”, “Look At Me” e “I Found Out”, esta, um misto de vocais “agressivos” com uma sonoridade absolutamente inofensiva, causando-me momentos de sincero constrangimento. A baladinha “God” é legalzinha. Para meus ouvidos brutalizados, Plastic Ono Band é um trabalho medianíssimo, e seu ponto mais positivo é ter menos de 40 minutos.


MARCO: The dream is over”. Após o final dos Beatles cada um seguiu seu caminho, sem contudo se distanciar tanto assim musicalmente do que era feito pelos Fab Four. Como fã assumido dos Beatles, contudo, eu sempre achei as respectivas obras dos quatro inferiores àquilo que fizeram em conjunto. Reouvir este disco só me fez relembrar essa minha pequena teoria. Esse disco é bom, traz clássicos do quilate de “Mother” e “Working Class Hero”, a letra de “God” é fantástica (God is a concept by which we measure our pain), mas o todo soa menor do que suas partes, infelizmente.

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7º – VAN MORRISON – MOONDANCE
(239 pontos – 11/13)

DANIEL: Quem está acompanhando esta nossa série de Melhores do Ano sabe que o Van Morrison já deu às caras por aqui na edição de 1968. Em Moondance, seu terceiro álbum, o folk abre espaço para uma musicalidade mais convencional, baseada no Rhythm and blues, embora ela seja misturada ao Jazz, ao Soul, ao Rock e até mesmo ao Folk, retrato de sua mudança para os Estados Unidos. Canções bem empolgantes como “And It Stoned Me”, “Moondance” e “Brand New Day” são exemplos disto e constituem um disco muito bom, entretanto, eu o considero inferior a Astral Weeks.


MARCO: Mais um dos artistas que, confesso, não conhecia antes de verificar esta lista. E, como não poderia deixar de ser, outra agradável surpresa. Às vezes “soft rock”, às vezes R&B, às vezes pendendo para o jazz ou para o folk, Moondance é uma obra que agrada. Van Morrison evidentemente possui uma voz privilegiada e faz ótimo uso dela, tanto nas músicas mais “upbeats” quanto nas músicas mais tranquilas. Excelente “descoberta”, ótimo disco que mais uma vez mostra a quantidade de material de excelência que foi lançado nas décadas passadas.

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8º – SIMON & GARFUNKEL – BRIDGE OVER TROUBLED WATER
(237 pontos – 11/13)

DANIEL: Simon & Garfunkel retornam à série depois de estarem presentes no Top 10 de 1966. Ouvi este Bridge over Troubled Water que contem algumas canções bem conhecidas, entre as quais destaco “The Boxer”. O que mais me chama a atenção é o capricho com que são concebidas as harmonias vocais, construídas para valorizarem as melodias ainda mais. Um bom trabalho, indiscutivelmente, mas que eu não colocaria entre os 10 mais de um ano como esse.


MARCO: Realmente esse tipo de som não é pra mim. Obviamente a folk music dos caras tem uma legião de fãs e não vou ser aqui leviano a ponto de não reconhecer as qualidades vocais da dupla, mas esse tipo de música não me emociona. Já conhecia a música “Bridge Over Troubled Water”, claro, e só. Como nessa época a folk music e o rock andavam lado a lado, é natural que Simon & Garfunkel fossem abraçados pela juventude compradora de discos e frequentadora de shows. Valeu pela experiência, mas não é um tipo de música para a qual voltarei.

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9º – GEORGE HARRISON – ALL THINGS MUST PASS
(234 pontos – 12/13)

DANIEL: O grande pecado de All Things Must Pass é ser longo demais: um álbum triplo. Lá pela metade do segundo disco, você já começa a se cansar. Mas o primeiro, por exemplo, tem canções excelentes como “Wah-Wah”, “What Is Life”, “Run Of The Mill” e as lindíssimas “My Sweet Lord” e “Isn’t It A Pity”. Acompanhado por um timaço de músicos como Ringo Starr e Eric Clapton, George Harrison provou definitivamente sua enorme qualidade como compositor em um álbum extremamente sensível.


MARCO: Em se tratando de Beatles é difícil alguma história envolvendo qualquer de seus membros que não seja amplamente conhecida. All Things Must Pass é sabidamente uma antologia de músicas rejeitadas pelos companheiros de banda. O vinil é triplo, o CD é duplo. Precisava de tudo isso? Não, mas a atitude é compreensível, o cara ficou sendo podado pelo produtor e pelos companheiros de banda por quase dez anos e quis soltar de uma só vez tudo o que estava engasgado, mesmo correndo o risco de parecer auto-indulgente, o que pareceu. E dane-se que “My Sweet Lord” é plágio, é uma música sensacional mesmo assim!

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10º – MILES DAVIS – BITCHES BREW
(220 pontos – 9/13)

DANIEL: Miles Davis foi o maior e melhor músico do século XX, revolucionando a música algumas vezes ao longo de sua estonteante carreira. Após o extraordinário In a Silent Way, de 1969, Miles continua a construção musical que levaria ao Jazz Fusion, com um álbum duplo e simplesmente arrebatador. A inesquecível faixa-título é assombrosa, mas, mesmo assim, se torna ‘pálida’ perto da monstruosa “Pharaoh's Dance”. Acompanhado por estrelas como o saxofonista Wayne Shorter e o guitarrista John McLaughlin, Davis incorporava elementos do Rock a sua musicalidade e transformava a história da música mais uma vez em Bitches Brew. Evidentemente, o melhor álbum do ano.


MARCO: Com fortes influências africanas para além do jazz, Miles Davis se reinventou em Bitches Brew e, com isso, acabou de certa forma dando o pontapé inicial para o que viria a ser o “jazz fusion”. É um dos discos mais importantes da carreira do trompetista, tá ali com o Kind of Blue, o que não é pouco! A sonoridade desse disco é densa, cheia de nuances e com certeza sua audição não é fácil nem tampouco recomendada para o dia-a-dia, porém é altamente recompensadora quando se está com o espírito no lugar certo, a mistura de free jazz, rock e funk ainda hoje soa inovadora.

(*) After Gold Rush e Cosmo’s Factory empataram em pontos e presenças em listas, mas o primeiro conquistou mais segundas posições em algumas listas pesquisadas.


Os que quase entraram

11º - Santana - Abraxas (194 pontos)
12º - Derek and The Dominos - Layla and Other Assorted Love Songs (191 pontos)
13º - Grateful Dead - American Beauty (153 pontos)
14º - Crosby, Stills, Nash & Young Deja Vu (146 pontos)
15º - The Velvet Underground - Loaded (138 pontos)
16º - Black Sabbath - Black Sabbath (137 pontos)
17º - Curtis Mayfield Curtis (136 pontos)
18º - Grateful Dead - Workingman's Dead (121 pontos)
19º - Deep Purple In Rock (110 pontos)
20º - Nick Drake - Bryter Layter (105 pontos)

Ao todo foram listados 113 álbuns diferentes.


Comentários Adicionais

DANIEL: Uma ótima lista, mas que não reflete necessariamente a minha particular. Abraxas, ‘Layla’, Deja Vu e Fire and Water (do Free) estariam em uma lista pessoal, nos lugares de Fun House, Plastic Ono Band, Moondance e Bridge over Troubled Water. Meu primeiro lugar seria Bitches Brew, seguido por Paranoid e Led Zeppelin III.


MARCO: Mais uma vez a estética rock’n’roll domina a lista, tanto no top 10 quanto nos que quase entraram. Lamento o Deep Purple ter ficado fora das dez primeiras, In Rock é um dos pilares da infância do Heavy Metal, mas o rock mais pesado está muito bem representado com o Led Zeppelin e especialmente com o Black Sabbath. A dominância da temática rural/campestre ainda é evidente, mas outros assuntos começam a ser abordados pelas bandas, tendência já observada no ano anterior e sinal de que a cultura hippie estava perdendo força. Interessante notar que até artistas de outros gêneros, Miles Davis à frente, estavam absorvendo influências roqueiras e mudando sua sonoridade. No geral a lista me agradou, apesar de, pro meu gosto pessoal, ter sido menos impactante que a lista de 1969, tanto que desta vez não vi nada que pudesse ser considerado uma surpresa, talvez a colocação do Paranoid. Que venha a década de 1970!


Bom, agora é com você leitor. Compartilhe, diga o que achou e faça sua lista pessoal nos comentários! Fique à vontade para participar! E, em abril, voltaremos com a lista de 1971. Fiquem ligados!

3 Comentários

  1. Meu álbum preferido de 1970 é o In Rock, que marca a estréia da formação clássica do Deep Purple, a chamada MK II. Ultimamente estou gostando mais deste disco do que do clássico Machine Head (1972)... Mas enfim, In Rock merecia ser citado nessa lista.

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  2. Realmente o In Rock é um baita álbum... Definiu muito do que seria o rock nos anos 1970 e nas próximas décadas!

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