Por Daniel Benedetti


Sexta-feira, 13 de fevereiro de 1970. Há 50 anos, surgia esta vertente do Rock tão apaixonante e com uma legião de fanáticos por todos os cantos do globo: o Heavy Metal! Naquele dia, era lançado o álbum de estreia da banda britânica Black Sabbath, pela Vertigo Records, também chamado Black Sabbath.

É necessário que se volte ao tempo para entender a lógica do lançamento deste álbum tão importante. A banda começou em 1968 sob o nome de Polka Tulk Blues Band (mais tarde, apenas Polka Tulk) e tocavam um repertório constituído basicamente por Blues. Nesta época a formação contava com Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler, Bill Ward e mais dois componentes: o guitarrista Jimmy Phillips e o saxofonista Alan Clarke.

Pouco tempo se passou e Phillips e Clarke deixam a banda. Com a mudança, o quarteto altera seu nome para Earth – que supostamente Ozzy odiava – e começam a tocar em seu repertório covers de Jimi Hendrix, Cream e Beatles. Nesta época, eles conseguem um certo sucesso no circuito de pubs dentro da Inglaterra.

Foi também nesta época que o grupo descobre que estava sendo confundido com uma outra banda inglesa que também se chamava Earth. Os caras decidem que precisavam de um novo nome. No lugar em que ensaiavam, mais precisamente em frente, havia um cinema.

Nos tempos do Earth

Justamente quando a banda procurava um nome, o filme exibido nesta sala de cinema era Black Sabbath (As Três Faces do Medo), do italiano Mario Brava, estrelado por Boris Karloff. Vendo as filas que se formavam diariamente para assistirem ao filme, o baixista Butler teve uma sacada: “engraçado como as pessoas gastam dinheiro para sentirem medo”. E na mesma linha de raciocínio deduziu que se pagavam para assistirem filmes de terror, pagariam para ouvir músicas com essa temática.

Obcecado pela ideia, Butler – um grande fã de ocultismo – inspira-se na obra de Dennis Wheatley e em pesadelos com uma figura negra para escrever a letra de uma música chamada “Black Sabbath”. A parte musical fica a cargo de Iommi, que a compõe usando o trítono, em um intervalo mais lento, conhecido como “Diabolous In Musica” – ou o acorde proibido. O resultado da canção foi impressionante. E este passaria a ser o nome adotado pela banda.

Assim, o Black Sabbath resolve investir neste caminho. O som absolutamente aterrorizador da música “Black Sabbath” e sua temática lírica ocultista fazem a banda tentar escrever material semelhante e conceber musicalmente o que equivaleria ao cinema de terror.

Em novembro de 1969 a banda grava um single, “Evil Woman”, que passa despercebido. No entanto, como assinaram com a Phillips Records, sob o novo selo Vertigo, é concedido ao Black Sabbath dois dias no Trident Studios para a gravação do álbum. Tony Iommi disse anos depois que sabia que um dia era para a mixagem e resolveu gravar tudo em um dia só mesmo.

Ward, Ozzy, Iommi e Butler

O produtor Rodger Bain aceitou a ideia de gravarem tudo “ao vivo”. Colocou-se Ozzy cantando em um canto do estúdio, em uma cabine separada, o restante da banda ficou no outro e assim se fez a gravação. Iommi alerta que a maior parte do álbum não teve gravação posterior.

Segundo o guitarrista e membro fundador do Black Sabbath, Tony Iommi, o álbum de estréia do grupo foi gravado em um único dia, em 16 de outubro de 1969. A sessão durou doze horas. Iommi disse: "Acabamos de entrar no estúdio e fizemos isso em um dia, tocamos nosso set ao vivo e foi isso. Na verdade, pensamos que um dia inteiro era bastante tempo, depois fomos no dia seguinte tocar por 20 libras na Suíça”.

Além dos sinos, os efeitos sonoros de trovões e chuva foram adicionados ao início da faixa de abertura e os solos de guitarra de duas faixas em "NIB" e "Sleeping Village", praticamente não houve overdubs adicionados ao álbum.

Iommi relembra a gravação ao vivo: “Pensamos: 'Temos dois dias para fazer isso e um dos dias será a mixagem’. Então tocamos ao vivo. Ozzy (Osbourne) estava cantando ao mesmo tempo, apenas o colocamos em um estande separado e fomos embora. Nunca tivemos uma segunda execução da maioria das coisas”.

Iommi e Osbourne em 1969

A chave para o novo som da banda no álbum foi o estilo de tocar distintivo de Iommi, que ele desenvolveu após um acidente em uma fábrica de chapas metálicas onde trabalhava aos 17 anos, em que as pontas dos dedos médios da mão direita foram cortadas.

Iommi criou um par de pontas de dedos falsos usando plástico de uma garrafa de detergente para louças e desafinou as cordas da guitarra, para facilitar a flexão das cordas, criando um som maciço e pesado. "Eu tocava um monte de acordes e tinha que tocar quintas (escalas) porque não conseguia tocar quartas por causa dos meus dedos", explicou Iommi a Phil Alexander, na Mojo, em 2013. "Isso me ajudou a desenvolver meu estilo de tocar, dobrando as cordas e batendo na corda aberta ao mesmo tempo, apenas para tornar o som mais selvagem".

No mesmo artigo, o baixista Geezer Butler acrescentou: “Na época, o baixista deveria fazer todas essas corridas melódicas, mas eu não sabia como fazer isso porque eu era guitarrista, então tudo o que fiz foi seguir o riff de Tony. Isso fez o som mais pesado”.

Iommi começou a gravar o álbum com uma Fender Stratocaster branca, sua guitarra preferida na época, mas uma pickup com defeito o forçou a terminar a gravação com uma Gibson SG, uma guitarra que ele havia comprado recentemente como backup, mas que "nunca tocou realmente".

Tony Iommi

A SG era um modelo para destros que o canhoto Iommi tocava de cabeça para baixo. Logo após a gravação do álbum, ele conheceu um guitarrista destro que estava tocando uma SG canhota, de cabeça para baixo, e os dois concordaram em trocar as guitarras; esta é a SG que Iommi modificou e depois deixou no Hard Rock Cafe.

O vocalista do Black Sabbath, Ozzy Osbourne, sempre falou com carinho da gravação do álbum de estréia da banda, afirmando em sua autobiografia I Am Ozzy: “Quando terminamos, passamos algumas horas rastreando duas vezes a guitarra e os vocais, e foi isso. Pronto. Estávamos no pub a tempo dos últimos pedidos. Não pode demorar mais de doze horas no total. É assim que os álbuns devem ser feitos, na minha opinião”.

O baterista Bill Ward concorda, dizendo à Guitar World, em 2001: “Eu acho que o primeiro álbum é absolutamente incrível. É ingênuo e existe um senso absoluto de unidade - não é inventado de forma alguma, de modo ou de maneira. Não tínhamos idade suficiente para ser inteligente. Adoro tudo, incluindo os erros!”

Em uma entrevista para a série Classic Albums, em 2010, Butler acrescentou: “Foi literalmente ao vivo no estúdio. Quero dizer, (produtor) Rodger Bain, acho que ele é um gênio da maneira como capturou a banda em tão pouco tempo”.

O produtor Rodger Bain

Em sua autobiografia Homem de Ferro: Minha Viagem Através do Céu e do Inferno com o Black Sabbath, Iommi minimiza o papel do produtor, insistindo: “Não escolhemos trabalhar com Rodger Bain, ele foi escolhido para nós... Ele era bom de se ter, mas nós realmente não recebemos muitos conselhos dele. Ele talvez sugeriu algumas coisas, mas as músicas já estavam bastante estruturadas e desenvolvidas”.

Liricamente, o fã de ocultismo, o baixista Geezer Butler, foi quem mais contribuiu para o álbum ao mesmo tempo em que Tony Iommi foi primordial na construção musical das canções.

A música e as letras do Black Sabbath eram bastante sombrias para a época. A faixa de abertura é baseada quase que inteiramente em um intervalo de tritone tocado em ritmo lento na guitarra elétrica. No documentário Classic Albums, de 2010, sobre a criação do segundo álbum da banda, Paranoid, Geezer Butler afirma que o riff foi inspirado em "Mars, the Bringer of War", um movimento de “The Planets”, de Gustav Holst. Iommi reinterpretou um pouco o riff e redefiniu a direção da banda.

Ward disse no mesmo Classic Albums: “Quando Oz cantou ‘What is this that stands before me?' tornou-se completamente diferente... essa era uma letra diferente agora, uma sensação diferente. Eu estava tocando bateria com as palavras”.

O moinho Mapledurham Watermill

A letra da música diz respeito a uma "figura de preto" que o baixista Geezer Butler afirma ter visto depois de acordar de um pesadelo.

Da mesma forma, a letra da música “N.I.B.” são escritas do ponto de vista de Lúcifer, que se apaixona por uma mulher humana e "se torna uma pessoa melhor", segundo o letrista Butler.

Ao contrário da crença popular, o nome dessa música não é uma abreviação de Nativity in Black; de acordo com a autobiografia de Osbourne, é apenas uma referência ao cavanhaque apontado pelo baterista Bill Ward na época, que foi modelado como uma ponta de caneta.

As letras de duas outras músicas do álbum foram escritas sobre histórias com temas mitológicos. "Behind the Wall of Sleep" é uma referência ao conto de H.P. Lovecraft, Beyond the Wall of Sleep, enquanto "The Wizard" foi inspirada pelo personagem de Gandalf, de O Hobbit e de O Senhor dos Anéis. A última inclui uma gaita tocada por Osbourne.

Ozzy Osbourne

A banda também gravou um cover de "Evil Woman", uma música que havia sido um sucesso americano da banda Crow. Em sua autobiografia, Iommi admite que a banda concordou com relutância em fazer a música a pedido de seu gerente, Jim Simpson, que insistiu em gravar algo comercial.

A capa de Black Sabbath apresenta uma representação do moinho Mapledurham Watermill, situado no rio Tamisa, em Oxfordshire, Inglaterra. Em pé, na frente do moinho de água, está uma figura vestida de preto.

O nome da mulher na capa é desconhecido, embora o guitarrista Iommi diga que uma vez ela apareceu nos bastidores de um show do Black Sabbath e se apresentou. De acordo com o feelnumb.com, que apresentava um artigo sobre a capa do álbum, “não se sabe muito sobre a mulher misteriosa usada na foto, além de modelo/atriz contratada para o dia e seu nome era Louise”.

A capa interna do lançamento original foi projetada por Keith McMillan (creditado como Marcus Keef) e apresentava uma cruz invertida com um poema escrito dentro dela. Alegadamente, a banda ficou chateada quando descobriu isso, pois alimentou alegações de que eram satanistas ou ocultistas; no entanto, nas memórias de Osbourne, ele diz que, até onde ele sabe, ninguém ficou chateado com a inclusão.

A foto original para a arte da capa

De repente, tivemos todas essas pessoas loucas aparecendo nos shows”, lembrou Iommi na Mojo em 2013. Nas anotações do Reunion, Phil Alexander afirma: “Sem o conhecimento da banda, o Black Sabbath foi lançado nos EUA com uma festa com o chefe da Igreja de Satanás, Anton Lavey, presidindo os procedimentos... De repente, o Sabbath era os homens da mão direita de Satanás”.

Black Sabbath” abre o álbum. O início marcado pelos sinos e o barulho da chuva com trovões contribuem para o clima altamente terrificante da canção. O riff, um dos mais famosos da história da música, é ao mesmo tempo sombrio e genial. Contribuem para isso a levada do baixo e a interpretação absolutamente perfeita de Ozzy, dando um clima de desespero à música. A concepção de “música de terror” foi atingida com perfeição. “The Wizard” contém uma gaita brilhante na faixa – tocada por Ozzy -, caracterizando a forte influência de blues que o Sabbath nunca contestou. O riff é inspiradíssimo, pesado e contagiante. Destaque para a precisa bateria de Bill Ward.

Como foi dito, “Behind The Wall Of Sleep” teve sua inspiração no romance do ocultista H. P. Lovercraft, denominado Beyond The Wall Of Sleep. Mais uma vez o destaque vai para a interpretação de Ozzy e para o riff contagiante. “NIB” é um dos maiores clássicos do Heavy Metal. A introdução feita pelo baixo de Geezer Butler é facilmente reconhecida por qualquer que já tenha ouvido a faixa. Conta com outro riff clássico, inconfundível e sombrio e Ozzy deixa sua marca registrada a frente da banda, que é passar para o ouvinte o clima exato da mensagem das letras.

O álbum ainda continha duas canções covers: “Evil Woman”, da banda Crow e “Warning”, que foi escrita e gravada pela Aynsley Dunbar's Retaliation. Duas canções de blues rock. Também havia a ótima música “Sleeping Village”, composta pela banda, que traz um violão tocado com muito feeling e uma ótima participação vocal de Ozzy no início da música.

A banda em 1970

Black Sabbath foi gravado pela Fontana Records, mas antes do lançamento, a gravadora optou por mudar a banda para outro selo, a Vertigo Records, que abrigava os atos mais progressistas da empresa.

Lançado na sexta-feira, 13 de fevereiro de 1970 pela Vertigo Records, Black Sabbath alcançou o 8º lugar nas paradas de álbuns do Reino Unido. Após seu lançamento nos Estados Unidos, em junho de 1970, pela Warner Bros. Records, o álbum alcançou a 23ª posição na Billboard 200, onde permaneceu por mais de um ano e vendeu um milhão de cópias.

Black Sabbath recebeu críticas geralmente negativas dos especialistas de sua época. Lester Bangs, da Rolling Stone, descreveu a banda como “igual ao Cream! Mas pior”, e ele descartou o álbum como “uma coisa sem valor - apesar dos títulos obscuros das músicas e de algumas letras insanas que soam como se o Vanilla Fudge prestasse homenagem burlesca a Aleister Crowley, o álbum não tem nada a ver com espiritismo, ocultismo ou qualquer outra coisa, exceto recitações rígidas dos clichês do Cream”.

Robert Christgau, escrevendo para o The Village Voice, classificou o álbum como "necromancia besteira". Mais tarde, ele o descreveu como um reflexo do "pior da contracultura", incluindo "tempo de reação prejudicado por drogas" e "longos solos".

Butler e Ward

Felizmente, a incapacidade de percepção da época deu lugar à lucidez. Revisões retrospectivas de Black Sabbath são positivas. No AllMusic, Steve Huey disse que era um álbum de estréia altamente inovador, com várias músicas clássicas do metal, incluindo a faixa-título, que ele considera “os riffs de heavy metal mais definitivos de todos os tempos”. Huey também ficou impressionado com o modo como o “rock denso e lento da banda golpeia o ouvinte de uma maneira quase alucinatória, revelando seu próprio estado de consciência atordoado e drogado”.

No The Rolling Stone Album Guide (2004), o jornalista Scott Seward destacou a grandiosa produção de Bain em “um álbum que devora hippies no café da manhã”.

Pete Marsh, da BBC Music, se referiu a Black Sabbath como um “álbum que mudou a cara do rock”. No livro de Mick Wall, Black Sabbath: Symptom of the Universe, Butler reflete: “A imprensa de Londres nos odiava absolutamente quando chegamos, porque nunca escreveram um artigo sobre nós, não nos conheciam. Quando nosso primeiro álbum, a primeira semana, foi direto para as paradas, a imprensa de Londres foi, tipo, o que diabos está acontecendo aqui? E eles nos odiaram desde então”.

Em 1989, a Kerrang! classificou Black Sabbath em 31º lugar de seus "100 Maiores Álbuns de Heavy Metal de Todos os Tempos".

O jovem Tony Iommi

Em 1994, o disco foi classificado como número 12 dos 50 principais álbuns de Heavy Metal de Colin Larkin. Larkin elogiou a "atmosfera esmagadora de destruição", que ele descreveu como "intensa e implacável".

Em 2000, a revista Q incluiu Black Sabbath em sua lista dos "Melhores álbuns de metal de todos os tempos", afirmando: "provou ser tão influente que continua a ser um modelo para as bandas de metal por três décadas".

Em 2005, foi classificado como 238º lugar na lista da revista Rolling Stone dos 500 maiores álbuns de todos os tempos; foi classificado na 243ª posição em uma edição revisada da lista em 2012.

A mesma revista Rolling Stone classificou Black Sabbath na 44ª colocação em sua lista dos 100 melhores álbuns de estreia de todos os tempos, descrevendo a faixa-título como a música que "definiria o som de mil bandas". Além disso, em 2017, a revista o posicionou em quinto lugar na lista de "100 Maiores Álbuns de Metal de Todos os Tempos".

A formação clássica do Sabbath

O álbum também foi incluído no livro 1001 Álbuns que você deve ouvir antes de morrer.

Após todos estes dados, fica muito claro que Black Sabbath marca realmente a estreia do Heavy Metal. Foi nele (e na sua sequência, Paranoid) que os elementos que constituiriam o então novo estilo musical foram consolidados.

Se outras bandas já estavam tocando um som mais pesado anteriormente, nenhuma tocava tão pesado quanto ao Black Sabbath. Nenhuma possuía a estética sombria, as letras soturnas que quebravam e rompiam com a temática hippie da década anterior, oferecendo ao ouvinte o caos, o horror e a condição miserável humana.

Em suma, em 1970, não havia nada parecido com o Black Sabbath e sua musicalidade. Portanto, há 50 anos, nascia o Heavy Metal.

Formação:
Tony Iommi - Guitarra
Geezer Butler - Baixo
Ozzy Osbourne – Vocal, Gaita
Bill Ward – Bateria

Faixas:
01. Black Sabbath (Iommi / Osbourne / Ward / Butler) - 6:21
02. The Wizard (Iommi / Osbourne / Ward / Butler) - 4:24
03. Behind the Wall of Sleep (Iommi / Osbourne / Ward / Butler) - 3:37
04. N.I.B. (Iommi / Osbourne / Ward / Butler) - 6:07
05. Evil Woman (L.Wiegard / R. Wiegard / D. Wagner) - 3:35
6. Sleeping Village (Iommi / Osbourne / Ward / Butler) - 3:46
07. Warning (Dunbar) - 10:33



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