Por Silvio Tavares


Título: The Lighthouse
Data de lançamento: 2 de janeiro de 2020 (Brasil)
Direção: Robert Eggers
Elenco: Willem Dafoe, Robert Pattinson
Nota: 9.1 (em 10)

O Conteúdo abaixo contém spoilers.


Em 2015, um dos mais aterradores filmes da década emergiu sob a verve que parecia abranger muitos dos cineastas relacionados ao estúdio A24. A Bruxa (The Witch) do desconhecido Robert Eggers utilizava uma surpreendente mistura de folclore, ocultismo e lendas para construir uma história densa sobre uma família cristã cujos valores são corrompidos por uma entidade maligna em um cenário notadamente pessimista. O grande sucesso do filme certamente causou grande expectativa em relação ao segundo longa do diretor. Felizmente, a espera se justificou. O Farol é tão interessante quanto o filme de estreia de Eggers.

The Lighthouse, ambientado na década de 1890, conta a história de dois homens encarregados de vigiar um farol em uma ilha isolada. O mais jovem, que permanecerá por duas semanas apenas, logo perceberá a atmosfera inóspita do lugar, que progressivamente parece exercer sobre si uma força misteriosa hostil. O mais velho, aparentemente mais sábio, contempla e molda as atitudes do rapaz, criando limites para suas ações.

Embora seja evidente se referir ao permanente conflito entre os protagonistas, apesar dos momentos pacíficos vivenciados ocasionalmente por eles, o fator que marca efetivamente a trajetória de ambos no filme certamente é composto pelas dimensões analíticas que simultaneamente compartilham, devido ao universo surreal proporcionado pela espiral de insanidade que envolve a história e especialmente torna toda e qualquer referência no nível narrativo possível ao público, completamente questionável. Os personagens mentem, se rebelam, manipulam e revelam os fatos a seu bel-prazer (incluindo a câmera-observadora, que desempenha um papel notadamente importante na história).

À medida que o enredo se descortina, se torna no mínimo curiosa a escolha pela antropomorfização de figuras de deuses mitológicos como Proteu e Prometeu, visivelmente reproduzidos parcialmente na delimitação de protagonistas tão humanizados quanto os de O Farol.

Ao meu ver, um dos brilhantismos de Eggers no filme está na manipulação de algumas variáveis criando uma forte perturbação no ambiente – isolamento, natureza inimiga (aparentemente por fatores sobrenaturais), racionamento de recursos – para discutir uma variável polêmica e atual (dentre outras que o filme abrange) de forma hiperbólica por estar em um cenário extremo: a masculinidade decadente, a qual me aterei por um momento.

Embora ambos os personagens aparentam agregar, para além de suas características humanas, ícones de masculinidade, talvez a obviedade seja mais visível no personagem de Robert Pattinson. Assim, alguns conceitos socialmente vinculados à figura do Homem estão intrínsecos a ele e de alguma forma aparecem em seus devaneios: desde conceitos mais particulares como a incessante busca pela fêmea e sexo, quanto a busca pelo sucesso profissional (que equivale a não ser chefiado por ninguém), liderança, proteção da família, a escatologia peculiar e até empregos “pesados”; bem como conceitos gerais como a busca pelo conhecimento – a simbólica luz - e o domínio sobre os outros através do poder (o macho alpha), dentre outros.

A tensão no filme se estabelece tanto pela obscuridade dos ângulos de câmera não triviais, pelo tom expressionista que confere certa excentricidade, pelos fortes contrastes criados pelo chiaroscuro, mas principalmente pela composição dos personagens e a inconstância do papel do observador (simbolizado como a própria câmera e, em última instância, os olhos do próprio público).

Um bom exemplo desta última característica ocorre logo após um ponto de virada do protagonista, o qual comete um ato imperdoável, em que a câmera se afasta e sobe pelas apavorantes instalações, atingindo o limite superior de suas tenebrosas paredes. No cume, onde se localiza um cata-vento cujo movimento perturbador prenuncia os distúrbios provocados no equilíbrio rumo ao colapso entre a natureza e o interesse do homem concretizado no jovem faroleiro, os ventos sopram fortes alterando sua direção inicial. Não há dúvidas, a natureza deixou o estado de alerta e passou a ser inimiga.

Em detalhe, enquanto câmera testemunha, mais uma vez, Eggers estabelece uma relação de profundo contato íntimo com o expectador, o personagem e os artifícios visuais. Adentrar o universo caótico em que convivem lendas, mitos, afirmação de valores e seu questionamento e decadência, certamente exige um poder de comunicação e linguagem peculiares. Mas talvez a maior eficácia do filme seja a opção pela construção do terror a partir da intimidade, especialmente em aspectos culturais radicados no âmago dos mais inquestionáveis preceitos difundidos: os formadores de valores morais e sociais que residem escondidos em nossa formação. Pois é a partir dessa revelia que a loucura se instala. E nesse âmbito nos posiciona como observadores-julgadores.
Desde o início (e gradualmente com mais potência), desfilam nos rostos e corpos dos homens a exaustão do desgaste físico, os quase-closes das excreções e dejetos biológicos que eliminam e posteriormente, rumo ao extremo, resultam os dejetos psicológicos da mente exteriorizados nos vícios alcoólicos, nas êmeses, nas danças aleatórias, nos cânticos declaratórios, nas fragilidades extremas, nas desorientações sexuais e a submissão.



Cabe aqui um parêntese sobre a submissão, amplamente discutida no filme com cenas que beiram propositadamente o ridículo e a comicidade no filme. Símbolo máximo de decadência dos valores antigos e ultrapassados ao ser atribuído como caracterização feminina em um mundo cada vez mais onde o preconceito e a masculinidade “alpha” perdem espaço e as mulheres protagonizam as mais diversas funções com extrema eficiência, liderança, capacidade e independência geram momentos assustadores no filme por remeterem ao arcaísmo a que vários jovens homens ainda são submetidos e ensinados propagando até os dias de hoje os mesmos conceitos errôneos que agonizam mas não desaparecem.

O acerto da escolha proporciona talvez uma das melhores cenas de terror genuíno do ano. Enquanto efetuamos nossas análises sobre o personagem principal e ele se declara visivelmente fragilizado e confuso, em um processo de despersonalização avançado, onde se questiona até mesmo se existe outra pessoa ali, naquele farol imponente, com seus segredos bizarros que lhe tragavam a insanidade junto à bebida enquanto nos identificamos secretamente com alguns daqueles ícones de alcance tão longínquo e reconhecemos em nós mesmos sua decadência, o homem que não sabe se é Thomas ou Ephraim ou Wake ou Winslow ou Howard ergue seus olhos para a câmera e nos olha diretamente, mostrando que há uma traição em curso, da mesma forma que nós assaltamos sua intimidade, ele também assalta a nossa. É assustador, intimista e nos transforma de julgadores a julgados por essa interessante perspectiva.

Esses jogos de percepção no filme são vários e encaminham para um intrigante desfecho. E notem que nem cheguei a mencionar os artifícios de som que são espetaculares também contribuindo para os processos mentais, a fotografia extraordinária e as atuações dignas de Oscar tanto de Pattinson quanto de Willem Dafoe, que estão sensacionais (Dafoe, inclusive teve que treinar sotaque e tem falas muito extensas, belíssimo trabalho).

O Farol é o melhor filme que vi no ano de 2019, está em cartaz em um circuito bem restrito, mas vale muito a pena assistir. Há muito a se discutir, como vocês podem perceber, mas boa arte é assim mesmo, inesgotável.

*Enquanto Proteus conhecia o passado, presente e o futuro, bem como conseguia se metamorfosear em criaturas marítimas, Prometeu foi responsável pela criação dos humanos e roubou o fogo de Héstia para dá-lo aos mortais, sendo punido posteriormente por Zeus. Os dois deuses jamais se encontraram, aparentemente. Procure ler os mitos de Proteus e Prometeu para maiores explicações.



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