Beatles em 1969


Por Marco Néo


O Alvorada Sonora continua a série de posts sobre os Melhores Álbuns lançados, por ano, a partir de 1965. O ano de 1969 aparece com o tetracampeonato dos Beatles, mas tem muito mais. Desta feita, a edição é mais especial, com a estreia do nosso novo colaborador, Marco Néo, responsável pela análise e pelos comentários desta lista. Assim sendo, aproveite agora mesmo para ler o texto impecável que o Marco preparou para nós!


Metodologia

Deixando bem claro: o SITE NÃO ESCOLHEU os álbuns de cada ano, até porque não faria sentido comentar sobre os trabalhos que consideramos os melhores e suas posições se nós mesmos os ordenamos.

Assim, o que se fez foi contabilizar 13 diferentes listas de melhores do ano, da 1ª à 30ª posição, atribuindo 30 pontos ao primeiro e diminuindo 1 ponto por posição, até a 30ª colocação receber exatamente 1 ponto.

Portanto, após as 13 listas contabilizadas, somamos todos os pontos (de acordo com cada posição em cada uma das 13 listas), perfazendo o total somado. A não aparição em uma lista, obviamente, não gera ponto.

Desta forma, o máximo possível para um disco atingir (primeira posição em todas as listas) é 390 pontos. Os 10 álbuns de pontuação mais alta formam a lista.

No caso de empate no número de pontos, os critérios de desempate, na ordem, são:

1 – Mais aparições em listas diferentes

2 – No caso de empatarem no primeiro critério, o álbum que atingiu a posição mais alta em uma das listas fica com a colocação mais elevada.


Posts

Os posts são feitos sempre do 1º para o 10º lugar, com sua pontuação, número de presenças nas diferentes listas e comentários estritamente pessoais sobre os álbuns.


Alguns fatos históricos do ano de 1969

20 de janeiro - Richard Nixon toma posse como Presidente dos Estados Unidos.
8 de fevereiro - Queda do Meteorito Allende em Chihuahua no México.
28 de junho - Revolta de Stonewall
1 de julho - Gustav Heinemann substitui Heinrich Lübke como Presidente da Alemanha, Heinemann foi também o primeiro social-democrata a ocupar o cargo desde Friedrich Ebert (Presidente da Alemanha entre 1919 e 1925) em 44 anos.
20 de julho - Neil Armstrong foi o primeiro homem a pisar a Lua, como comandante da missão Apollo 11.
15, 16 e 17 de agosto - Aconteceu nos Estados Unidos o Festival de Woodstock, considerado o maior festival de rock and roll de todos os tempos.
21 de outubro - Willy Brandt substitui Kurt Georg Kiesinger como Chanceler da Alemanha
29 de outubro - Primeira mensagem é enviada pela ARPANET, O precursor da Internet, Essa data é considerada o nascimento da internet.
30 de outubro - Emílio Garrastazu Médici toma posse como presidente do Brasil por meio de eleições indiretas.
19 de novembro - A Apollo 12 pousa na Lua. Foi a segunda missão do Programa Apollo a pousar na superfície da Lua e a primeira a fazer um pouso de precisão num ponto pré-determinado do satélite, a fim de resgatar partes de uma sonda não tripulada enviada dois anos antes, a Surveyor 3, e trazer partes dela de volta à Terra, para estudos do efeito da permanência lunar sobre o material empregado no artefato


A Lista



1º – THE BEATLES – ABBEY ROAD
(353 pontos – 13/13)

A história desse disco é amplamente conhecida. Apesar de ser o penúltimo disco lançado, é o último disco que os Beatles gravaram juntos. Depois do caos que foram as gravações do que viria a ser o Let It Be, George Martin impôs uma condição para as gravações de Abbey Road: que todos se dessem bem no estúdio. E como os Beatles rendiam quando estavam em harmonia! Gosto muito do “lado A” do disco, que traz a abertura com a rocker “Come Together”, além daquela que Frank Sinatra equivocadamente classificou como sendo a “melhor composição de Lennon e McCartney”, “Something” (composição do George Harrison, na verdade), e também o proto-metal de “I Want You (She’s So Heavy)”, mas a “sinfonia” idealizada por Mr. Macca, que encaixou várias músicas inacabadas dele e de John numa sequência que ocupa o “lado B” quase inteiro, é coisa de outro mundo. Primeiro lugar justíssimo.
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2º – LED ZEPPELIN – LED ZEPPELIN II
(340 pontos – 13/13)

A correria do dia-a-dia me fez ficar muito tempo sem ouvir essa preciosidade. Muito mais tempo do que eu gostaria, devo dizer. Esse disco funciona como um prólogo do que seria feito no rock nas décadas seguintes. Aqui encontramos todos os elementos do hard rock e do heavy metal que chegariam na década seguinte. Aliás, com base nos dois primeiros discos da banda, grande parte da crítica, especialmente nos anos 80, considerava o Led Zeppelin, e não o Black Sabbath, o primeiro grupo de heavy metal da história. Como todos sabemos, uma reavaliação histórica colocou os fatos nos eixos, já que a partir do III o Zeppelin seguiu outros rumos para além do rock pesado; dá, contudo, para colocar com justiça os conterrâneos de Mr. Iommi como precursores diretos do estilo.
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3º – THE ROLLING STONES – LET IT BLEED
(287 pontos – 11/13)

Esse já chega chegando com “Gimme Shelter”, um cartão de visitas bem forte e uma das músicas mais conhecidas dos Stones. O que mais me impressiona aqui é que, depois de um início tão bombástico, eles conseguem sem muitos esforços aparentes manter o nível num disco que escancara suas influências de blues e country. Duas curiosidades: uma, esta é a última aparição de Brian Jones em um disco dos Rolling Stones; outra, ao contrário de outras oportunidades, desta vez Let it Bleed não foi “inspirado” em Let it Be, trabalho que saiu somente no ano seguinte. Em 1969 o projeto ainda era conhecido como “Get Back”.
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4º – THE BAND – THE BAND
(276 pontos – 13/13)

O The Band é um grupo que sempre esteve no meu radar mas que, por pura preguiça (hoje em dia com YouTube e tantos serviços de streaming é preguiça sim), eu deixei de conferir. Azar meu. Ouvindo esse disco homônimo eu vejo o quanto todos que incensam esses Americanos tinham razão. Músicos experientes, músicas muitos degraus acima da media e um country rock com cheiro de campo. Com certeza voltarei muitas outras vezes a este disco e a esta banda. Se você, leitor, não conhecer, fica a indicação.
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5º – LED ZEPPELIN – LED ZEPPELIN
(267 pontos – 12/13)

O “pior” dos dois discos lançados pelo Led em 1969. Talvez o termo certo seja “o menos melhor”, já que em termos de qualidade e influência este álbum, inclusive, bate a grande maioria dos outros discos mencionados nesta lista. É impressionante constatar que neste primeiro trabalho o Zeppelin era uma banda já com um formato definido. Todos os elementos que os caracterizariam já estavam basicamente ali, afinal de contas estamos falando de músicos que, àquela altura, já tinham experiência de outras bandas, sem contar que Jimmy Page era um músico de estúdio razoavelmente requisitado. É como diria minha querida sogra, “o mais bobo ali dava nó em pingo d’água”. Não tinha como sair outra coisa que não uma obra essencial.
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6º – NEIL YOUNG AND CRAZY HORSE – EVERYBODY KNOWS THIS IS NOWHERE
(247 pontos – 12/13)

Segundo disco do canadense Neil Young, primeiro com a hoje lendária banda Crazy Horse. Assim como o Let It Bleed, esta belezinha aqui começa com uma música forte, neste caso “Cinnamon Girl”, que Neil toca ao vivo até hoje, cinquenta anos depois. Depois do começo estrondoso o disco dá uma bela desacelerada, como na música título e na balada acústica “Round & Round (It Won’t Be Long)”, mas sem perder a qualidade que permeia o trabalho desse músico altamente influente. Aliás, nota-se que Everybody Knows This Is Nowhere serviu como parâmetro até mesmo para os trabalhos seguintes do artista.
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7º – KING CRIMSON – IN THE COURT OF THE CRIMSON KING
(215 pontos – 8/13)

O impressionante primeiro disco do King Crimson. “21st Century Schizoid Man”. “In The Court of the Crimson King” (a música). “Moonchild”. Robert Fripp. Greg Lake. A icônica arte da capa. É coisa demais pra assimilar em um disco com “míseras” cinco músicas. Este não consigo colocar para tocar enquanto estou fazendo outra coisa, ele tem que ser apreciado com o máximo de atenção para que nenhum detalhe se perca. Não tenho medo de soar exagerado ao colocar este trabalho no panteão das obras-primas imortais da música.
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8º – NICK DRAKE – FIVE LEAVES LEFT
(201 pontos – 11/13)

Este é, pelo menos pra mim, o disco mais hermético desta lista. Não conhecendo nada do trabalho de Nick Drake, dei uma pesquisada para ter informações e poder me inteirar do contexto em que esta obra foi composta e lançada. Deparei-me com mais uma vítima do abuso de drogas que marcou os anos 60. Os anos psicodélicos não foram tão inocentes quanto querem que acreditemos, afinal de contas. A depressão é palpável no clima das faixas de Five Leaves Left, que trazem uma temática folk rural e bucólica. Certamente tem seu valor e sua base de fãs, mas não me vejo voltando a este disco.
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9º – THE WHO – TOMMY
(186 pontos – 10/13)

Por questão de princípios a língua coça pra falar mal de uma “ópera rock” que narra a história de um jogador de pinball. Mas, alto lá, estamos falando do The Who e do que provavelmente é sua obra máxima, Tommy. Aqui eles deixavam de vez de ser uma banda “mod”, inclusive na parte visual, e abraçavam o movimento hippie que dominava a contracultura de então num disco duplo com altas doses de psicodelia. Correram um risco grande, eu mesmo me pego cansando lá pela segunda metade do disco, mas a influência de Tommy em todo um subgênero do rock mostra o acerto da manobra.
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10º – CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL – GREEN RIVER
(185 pontos – 11/13)

Eu tenho que confessar aqui que não sou fã do Creedence. Conheço as músicas mais famosas, é uma audição agradável, mas não a ponto de me fazer correr atrás da discografia completa. Tendo isso em mente, fui de coração aberto ouvir Green River, terceiro trabalho dos caras e o segundo de três discos lançados por eles em 1969. Obviamente “Bad Moon Rising” é conhecida e me chama a atenção. No mais, e digo isso com todo o respeito à legião de fãs da banda, o restante não me emociona.


Os que quase entraram

11º - Sly & The Family Stone - Stand! (181 pontos)
12º - The Velvet Underground - The Velvet Underground (177 pontos)
13º - Captain Beefheart And His Magic Band - Trout Mask Replica (163 pontos)
14º - Elvis Presley - From Elvis In Memphis (137 pontos)
15º - Creedence Clearwater Revival - Willy and the Poor Boys (130 pontos – 9 listas – um QUARTO lugar)
16º - Crosby, Stills & Nash - Crosby, Stills & Nash (130 pontos – 9 listas)
17º - The Stooges - The Stooges (130 pontos – 8 listas)
18º - Dusty Springfield - Dusty in Memphis (129 pontos)
19º - Isaac Hayes - Hot Buttered Soul (119 pontos – 8 listas)
20º - Frank Zappa - Hot Rats (119 pontos – 7 listas)

Ao todo foram listados 119 álbuns diferentes.


Comentários Adicionais

Como se vê pela lista acima, 1969 foi um ano de domínio amplo do rock, com as únicas exceções sendo a presença de Sly & The Family Stone e Isaac Hayes, ainda assim fora do top 10.

Dentro dessa observação, constato que muitos dos discos que fizeram sucesso nesse ano apresentam uma característica comum, que é a temática voltada para a vida no campo. Reflexo óbvio do zeitgeist, com hippies dominando a contracultura. Interessante, por outro lado, notar que já começava a aparecer uma resposta mais virulenta à sonoridade relaxada do paz e amor, com o surgimento de bandas como o Led Zeppelin e os Stooges, que nesse ano lançaram seu primeiro disco auto-intitulado.

Para o meu gosto pessoal foi uma lista muito boa, alguns artistas ali presentes, como Beatles e Led Zeppelin, figuram na minha lista de preferidos. As surpresas ficam pela presença de um disco do Elvis Presley (se bem que nesse caso a presença da maravilhosa “Suspicious Mind” justifica a lembrança) e pela “descoberta” da The Band.


Bom, agora é com você leitor. Compartilhe sua lista nos comentários, diga o que achou e faça sua crítica e elogio! Fique à vontade para participar!

1 Comentários

  1. Belíssima estreia, Marcão, seja muito bem-vindo ao Alvorada. Texto realmente impecável e prazeroso de se ler.

    Quanto à lista, eu não sou um fã de Beatles e o Abbey Road não me apetece muito, mas é extremamente compreensível a primeira posição. Meu primeiro lugar seria o King Crimson, seguido pelo Led II e por The Band. Senti falta do Crosby, Stills & Nash na lista final. Mas não cabe todo mundo, 1969 é um ano muito disputado!

    Novamente, seja bem-vindo, meu amigo!

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