DISCOGRAFIA BIOGRÁFICA: CHICO SCIENCE

By Daniel Benedetti - outubro 04, 2019



O site Alvorada Sonora apresenta sua segunda Discografia Biográfica! Confira:



Francisco de Assis França nasceu na cidade de Olinda, em Pernambuco, no dia 13 de março de 1966. Ele ficaria conhecido pelo nome artístico de Chico Science.

Chico participava de grupos de dança e hip hop, em Pernambuco, no início dos anos 1980. No final da década, ele integrou algumas bandas de música como Orla Orbe e Loustal, inspiradas na música soul, no ska, no funk e no hip hop.

Entre suas principais influências musicais estavam James Brown, Grandmaster Flash e Kurtis Blow entre outros artistas de destaque da soul music norte-americana. A fusão com os ritmos nordestinos, principalmente o maracatu, veio em 1991, quando Science entrou em contato com o bloco afro Lamento Negro, de Peixinhos, subúrbio de Olinda.

A banda bem no início

A Loustal, de Science, era mais voltada ao rock, enquanto a Lamento Negro tinha influências do samba e do reggae. No ano de 1991, em Olinda, aconteceu o primeiro show da banda, com o nome provisório de Loustal & Lamento Negro, numa festa chamada ‘Black Planet’.

A fusão de ambas originou a Nação Zumbi e um objetivo: difundir o regionalismo musical que borbulhava por ali.

Neste mesmo ano, Chico Science e Fred Zero Quatro (do grupo Mundo Livre S/A) escreveram um Release, que acabou virando um manifesto do movimento Manguebeat, o ‘Manifesto dos Caranguejos com Cérebro’, que tem como símbolo, uma antena parabólica colocada na lama, tornando-se assim um dos principais movimentos e banda dos anos 90 no Brasil, lutando por melhorias sociais na vida da população, não só do Recife e do Estado do Pernambuco, mas como de todo cidadão brasileiro.

O Movimento Manguebeat desenvolveu-se em Recife, capital do estado de Pernambuco, a partir de 1991, e consistiu em uma “cena cultural”, especialmente de corte musical, que misturava elementos da cultura regional de Pernambuco, como o maracatu rural, com a cultura pop, sobretudo o rock'n roll e o hip-hop. O Manguebeat também desenvolveu uma forma própria de exprimir visualmente essa mistura. O uso do chapéu de palha, típico da cultura pernambucana, aliado a acessórios da cultura pop, como óculos escuros, camisas estampadas, tênis e colares coloridos produziu um efeito visual acentuado em seus integrantes.

O termo “manguebeat” é fruto de uma junção da palavra mangue, que designa um ecossistema típico da costa do Nordeste brasileiro e da cidade de Recife, com a palavra beat, do inglês, que significa batida – mas que também remete à linguagem dos códigos binários utilizados na informática: beat, bits. O caranguejo, forma de vida típica do mangue (ou da lama dos manguezais), que é capturado e vendido por trabalhadores da região, tornou-se o símbolo do Manguebeat.

Trecho do Manifesto:

Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.”

Influências regionais do Manguebeat seriam Jackson do Pandeiro e Josué de Castro, mas também Mestre Salustiano, Ariano Suassuna e Quinteto Armorial.

1994

O grupo, sem nenhuma experiência no estúdio, chamou a atenção de Pena Schmidt, o qual tentou levá-los para a gravadora Tinnitus.

Em julho de 1993 a banda assinou um contrato de 40 mil dólares com o selo Chaos, uma subsidiária da Sony Music, tendo feito apenas dois shows fora do seu estado natal (um show em Belo Horizonte e outro em São Paulo), e logo em seguida entra em estúdio para gravar seu álbum de estréia, Da Lama ao Caos. A Nação Zumbi era formada por Alexandre Dengue no baixo, Canhoto na caixa, Chico Science no vocal, Gilmar Bolla 8 na alfaia, Gira e Jorge du Peixe também na alfaia, Lúcio Maia nas guitarras e Toca Ogam na percussão.

DA LAMA AO CAOS – 1994

Com uma banda formada por músicos sem nenhuma experiência em um estúdio de gravação, o selo Chaos designou o experiente produtor Liminha para a tarefa de produzir Da Lama ao Caos. O álbum foi gravado no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, entre 1993 e janeiro de 1994. Liricamente, o disco representa fielmente os princípios do Manguebeat, com as canções apresentando letras de forte cunho social e de valorização da cultura nordestina. “Monólogo ao Pé do Ouvido” abre o trabalho apresentando a batida que caracterizaria a musicalidade do grupo com uma letra que conclama à luta social, valorizando figuras inspiradoras do passado. “Banditismo por Uma Questão de Classe” tem letras de protesto, percussão protagonista e um ótimo trabalho de Lúcio Maia nas guitarras. A genial “Rios, Pontes & Overdrives” conta com uma batida incrível e vocais de Science ao melhor estilo Hip Hop enquanto o clássico atemporal “A Cidade” aposta em uma musicalidade mais Rock, mas com influências evidentes do maracatu. As guitarras de Lúcio Maia detonam em outra canção memorável, “A Praieira”. Maracatu, a zabumba e elementos nordestinos ganham roupagem Rock em “Samba Makossa” em paralelo com a cadenciada e extremamente pesada “Da Lama ao Caos”. Lúcio Maia continua infernal em outra música espetacular, “Maracatu de Tiro Certeiro”. A curta instrumental “Salustiano Song” serve de anteparo para a funky “Antene-se” ao passo que o riff principal de “Risoflora” encanta pela sua força. Outra faixa instrumental inspirada é “Lixo do Mangue” simultaneamente à fenomenal “Computadores fazem Arte”, a qual tem excelentes vocais de Chico. Para encerrar o trabalho, mais uma faixa divertidíssima, “Côco Dub (Afrociberdelia)”. Da Lama ao Caos foi de difícil assimilação de público e crítica, em um primeiro momento. Os singles de sucesso como “A Cidade”, a qual ganhou clipe, entrando na grade de exibição da MTV e pouco depois fazendo parte da trilha sonora da telenovela Global Irmãos Coragem; e “A Praieira”, que virou trilha de Tropicaliente, ambas consequentemente tocando nas rádios. Progressivamente, o álbum chegou a ‘Disco de Ouro’, sendo reconhecido por crítica e publico. Hoje, Da Lama ao Caos é citado como um verdadeiro clássico da música brasileira, já que apresentou um som revolucionário, com canções energéticas, muito bem elaboradas, mesclando Funk Rock com Maracatu, Embolada e Psicodelia. O álbum está na lista dos 100 melhores discos da música brasileira (de 2007), da revista Rolling Stone, na 13ª posição.

Liminha havia limpado o som do grupo, tendo frustrado alguns fãs, entusiastas da energia da banda ao vivo. Mesmo assim, Da Lama ao Caos progressivamente tomou espaço no cenário musical brasileiro, consolidando-se como um dos álbuns mais importantes do país.

Durante o processo criativo, Liminha desenvolveu um apreço pelo trabalho de Chico Science & Nação Zumbi, superou a caxumba de Lúcio Maia e uma reestruturação intensa no fluxo de gravação, para só depois disso entregar Da Lama ao Caos.

Grupo ao vivo

Depois da turnê internacional de Da Lama ao Caos em 1995, Canhoto deixou a banda e em seu lugar entrou o baterista Pupillo. Com esse line-up o grupo gravou o seu segundo álbum.

Da Lama ao Caos projeta o conjunto nacionalmente, que sai em turnê. Em 1996, o grupo inicia os trabalhos para seu segundo disco, Afrociberdelia.

AFROCIBERDELIA – 1996

Afrociberdelia foi lançado em 15 de maio de 1996, também pelo selo Chaos. As gravações ocorreram no Estúdio Nas Nuvens, Rio de Janeiro, durante o verão de 1996; e no Estúdio Mosh, São Paulo, no mesmo ano. Desta feita, a própria banda produziu o trabalho ao lado do produtor Eduardo BiD. Afrociberdelia, o título do álbum, é um neologismo composto pela aglutinação do prefixo Afro e das palavras cibernética e psicodelia, refletindo as muitas influências da banda, que ia de ritmos africanos a rock psicodélico e música eletrônica. Com apenas 33 segundos, “Mateus Enter” é uma intro bem porrada. “Cidadão do Mundo” possui a batida típica do grupo, mas com uma pegada Hip Hop e Rock, bem criativa. Em “Etnia”, as guitarras de Maia continuam pesadas em uma mescla criativa com o ritmo Embolada enquanto a instrumental “Quilombo Groove” aplica os ritmos Afro com guitarras e a bateria, agora presente, de Pupilo. “Macô” aposta bastante em uma pegada bem psicodélica, assim como “Um Passeio no Mundo Livre” associa uma batida criativa com uma veia Pop mais acessível, contrapondo-se a “Samba do Lado”, uma faixa com a pegada Rock ‘n’ Roll mais afiada e vocais estilo Hip Hop de Science. A regravação antológica de “Maracatu Atômico”, de Nelson Jacobina e Jorge Mautner, tornou-se um clássico instantâneo para o conjunto e uma canção símbolo da Nação Zumbi. “O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu” traz o baixo de Dengue ainda mais pulsante, ao passo que “Corpo de Lama” é mais Pop, melodiosa e acessível, em oposição à “Sobremesa”, a qual conta com a guitarra de Maia afiada em uma atitude Hard Blues Rock. Outro clássico da banda é “Manguetown”, a qual conta com um groove espetacular, um ‘funkeado’ único e, especialmente, uma atuação extraordinária de Chico Science nos vocais. “Um Satélite na Cabeça (Bitnik Generation)” é praticamente um Rock, com clima de urgência e uma dose considerável de intensidade ao mesmo tempo em que a instrumental “Baião Ambiental” capricha no baixo de Dengue, fazendo jus ao seu nome. “Sangue de Bairro” possui guitarras furiosas e uma percussão com bastante peso, flertando até mesmo com o Heavy Metal, no que segue “Enquanto o Mundo Explode”, que se demonstra com um riff de guitarra quase Thrash, enquanto “Interlude Zumbi” alivia a sonoridade com uma roupagem acústica e musicalidade quase indígena. A belíssima e tocante “Criança de Domingo” tem vocais antológicos de Chico e letras emotivas em contraste com a abordagem caribenha de “Amor de Muito”. A instrumental “Samidarish” encerra o álbum, com uma pegada indiana inicial e muito experimentalismo na sequência. Os singles escolhidos – e que ganharam videoclipes com circulação intensa na MTV Brasil – foram “Maracatu Atômico” e “Manguetown”. Contudo, faixas como "Macô" (com participação nos vocais de Marcelo D2 e Gilberto Gil) acabaram se tornando clássicos do grupo. A versão LP tinha apenas 13 músicas, começando em “O Cidadão do Mundo” e terminando em “Amor de Muito”, omitindo as faixas entre “Sangue de Bairro” e “Criança de Domingo”. Uma reedição em vinil pela Polysom em 2010 para a coleção ‘Clássicos em Vinil’ incluiu as faixas “Mateus Enter” e “Sangue de Bairro” como primeira e oitava faixa do lado A, respectivamente. Em 1997, “Sangue de Bairro” foi incluída na trilha sonora do filme Baile Perfumado e também ganhou videoclipe, ano em que Afrociberdelia também chegaria ao status de Disco de Ouro (como seu antecessor). O disco foi situado em 18° lugar na lista de 100 melhores discos da música brasileira da revista Rolling Stone Brasil (em 2007) e em 2° na eleição dos melhores discos nacionais dos anos 1990, realizada pelo site Scream & Yell.

O segundo disco, Afrociberdelia, confirmou a tendência inovadora da Chico Science e Nação Zumbi, que excursionou pela Europa, onde encontrou nomes do calibre de Os Paralamas do Sucesso, e pelos Estados Unidos, onde fez algum sucesso, de público e crítica, e tocou com Gilberto Gil.

Chico Science em 1996

A versão da canção “Maracatu Atômico” foi o clipe que encerrou as atividades da MTV Brasil, do grupo Abril, em 30 de setembro de 2013.

A Nação Zumbi lançou um CD duplo em 1998, depois da morte do líder Chico Science, com músicas novas e versões ao vivo remixadas por Djs.

Chico Science morreu no final da tarde de um domingo, no dia 2 de fevereiro de 1997, em um acidente de automóvel quando dirigia o carro de sua irmã de Recife à Olinda. Às 18h30, ele estava sozinho ao volante na estrada quando seu carro se chocou com um poste depois que um outro veículo teria fechado a passagem de seu Uno.

Science ainda foi socorrido por um policial que estava passando num ônibus e o levou ao Hospital da Restauração, mas o jovem cantor e compositor não resistiu e chegou ao hospital morto.

O enterro aconteceu na segunda-feira do dia 3 de fevereiro de 1997, no Cemitério de Santo Amaro, localizado no Recife. A família de Chico Science recebeu indenização de cerca de 10 milhões de reais da montadora Fiat, responsabilizada pela morte do cantor e compositor no acidente, devido a falhas no cinto de segurança do carro que dirigia e que poderia ter lhe poupado a vida.

Túmulo de Science

Ano após ano, seu túmulo é visitado por fãs e admiradores da sua obra e de seu legado.


Podem ser citadas como bandas relacionadas a Chico Science, as conterrâneas Mundo Livre S/A, Bonsucesso Samba Clube, e as mais recentes Cordel do Fogo Encantado e Otto. Outras bandas influenciadas por Chico: Sepultura (em Roots), Soulfly (que gravou “Sangue de Bairro” em 3 e contou com Lúcio Maia, Du Peixe e Gilmar no seu primeiro disco Soulfly), Cássia Eller, Fernanda Abreu e Arnaldo Antunes.

A banda filipina de nu metal Chicosci, originalmente se chamava Chico Science, inspirada pelo artista brasileiro.

Em 1998, a Nação Zumbi lançou CSNZ, um álbum duplo e uma compilação, lançado em homenagem a Chico Science, um ano após sua morte. O primeiro disco apresenta canções inéditas de estúdio, outras gravadas ao vivo com Chico além de uma regravação de “Samba Makossa” pelo grupo Planet Hemp. No segundo, nove remixagens dão às canções de Chico atmosferas dançantes, segundo visões de nomes tanto do mainstream quanto do underground. No final, há ainda o tributo feito pelo artista inglês Goldie, “Chico - Death of a Rockstar”.

Nação Zumbi em ação

A Nação Zumbi continuou na ativa após a morte de Chico Science, com Jorge du Peixe assumindo os vocais. Em estúdio, além dos supracitados álbuns, o conjunto lançou os trabalhos Rádio S.Amb.A. (2000), Nação Zumbi (2002), Futura (2005), Fome de Tudo (2007), Nação Zumbi (2014), Radiola NZ Vol. 1 (2017).

Fontes: Site Oficial; Site História do Mundo; Site Alataj; Wikipédia; Google.

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