IRON MAIDEN - PASCHENDALE

By Daniel Benedetti - agosto 29, 2019



Escrever sobre a banda preferida é uma tarefa que exige constante vigilância. Controlar elogios exacerbados e deméritos inexistentes, em um necessário esforço para ser aquilo que se faz obrigatório: a justiça.

Dentre todas as faixas que compõem Dance of Death, 13º álbum de estúdio do Iron Maiden, a de maior destaque é a 8ª canção: “Paschendale”. Antes de abordá-la, um breve histórico.

A banda em 2004

A Batalha de Passchendaele, também conhecida como a ‘Terceira Batalha de Ypres’, foi uma campanha militar da Primeira Guerra Mundial, travada pelos Aliados contra o Império Alemão.

Grosso modo, a Primeira Guerra Mundial foi o conflito bélico/militar centrado na Europa, travado entre os Aliados (ou Tríplice Entente – Reino Unido, França e Rússia) e a chamada Tríplice Aliança (Império Alemão, Império Austro-Húngaro e a Itália – esta última lutaria ao lado dos Aliados). Durante o seu desenrolar, vários outros países adentraram o conflito que começou em 28 de julho de 1914 e durou até 11 de novembro de 1918.

Entre as causas da guerra incluem-se as políticas imperialistas estrangeiras das grandes potências da Europa, como o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro, o Império Otomano, o Império Russo, o Império Britânico, a Terceira República Francesa e a Itália.

O estopim para o início da guerra ocorreu em 28 de junho de 1914, com o assassinato do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, o herdeiro do trono da Áustria-Hungria, pelo nacionalista iugoslavo Gavrilo Princip, em Sarajevo, na Bósnia. O resultado foi um ultimato da Áustria-Hungria contra o Reino da Sérvia. Logo, as grandes potências da época estavam em guerra e; através de suas colônias, o conflito logo se espalhou ao redor do planeta.

O confronto que se denominou “A Batalha de Passchendaele” aconteceu na chamada Frente Ocidental, de julho a novembro de 1917, para o controle das zonas sul e leste da cidade belga de Ypres, na região de Flandres Ocidental, como parte de uma estratégia decidida pelos Aliados, em conferências em novembro de 1916 e maio de 1917. Passchendaele estava no último cume a leste de Ypres, a 8 km de um entroncamento ferroviário em Roulers, que era vital para o sistema de abastecimento do 4º Exército alemão.

Foto da Primeira Guerra Mundial

Por conta de sua geografia, a posse do terreno mais alto, ao sul e leste de Ypres, revelar-se-ia uma vantagem ao exército que a possuísse, uma vez que traria benefícios do ponto de vista de observação e artilharia, além de facilitar a proteção para a chegada de reforços e todo o tipo de suprimentos.

Retornando à música, em Dance of Death, o Maiden já era um sexteto: Bruce Dickinson nos vocais, Steve Harris no baixo, Nicko McBrain na bateria e a trinca de guitarristas: Janick Gers, Dave Murray e Adrian Smith. Harris e Smith são os autores de “Paschendale”.

A canção começa com uma melodia melancólica e Bruce declamando as letras, intercaladas por pequenos momentos de fúria. As letras falam sobre um soldado em solo estrangeiro praticamente implorando para que o mundo saiba sobre o que aconteceu na Batalha de Passchendaele:

In a foreign field he lay
Lonely soldier unkown grave
On his dying words he prays
Tell the world of Paschendale

Relive all that he's been through
Last communioun of his soul
Rust your bullets with his tears
Let me tell you 'bout his years

As duas primeiras estrofes condizem com o que a História conta: a grande maioria dos soldados envolvidos na batalha eram britânicos, alemães e franceses lutando na Bélgica, estando todos, portanto, em território estrangeiro.

Em seguida, a faixa ganha em peso e intensidade, contando com um bom riff Heavy/Hard. As letras relatam o soldado em uma trincheira, aguardando o momento de agir (e morrer), sofrendo não apenas com a certeza da morte, mas também com a chuva:

Laying low in a blood filled trench
Killing time 'til my very own death
On my face I can feel the falling rain
Never see my friends again

In the smoke in the mud and lead
Smell the fear and the feeling of dread
Soon be time to go over the wall
Rapid fire and the end of us all

Os relatos históricos revelam que a Primeira Guerra Mundial foi um embate de trincheiras. A Batalha de Passchendaele teve início em julho de 1917, no verão Europeu, mas as condições climatológicas não ajudaram: chuva e lama deixaram o campo de batalha em condições precárias e os avanços, de ambos os lados, eram irrisórios. O trecho “Rapid fire and the end of us all” relata outra característica de Passchendaele: os movimentos adversários eram rapidamente rechaçados com artilharia pesada.

A ponte se revela uma melodia ainda muito pesada, mas, ao mesmo tempo, angustiante, com guitarras furiosas e vocais intensos de Dickinson. A letra detalha bem como ocorreram as batalhas em Passchendaele, com muitos soldados bastante jovens em um impasse com o destino sendo mortal:

Whistles, shouts and more gun fire
Lifeless bodies hang on barbed wire
Battlefield nothing but a bloody tomb
Be reunited with my dead friends soon

Many soldiers eighteen years
Drown in mud no more tears
Surely a war no-one can win
Killing time about to begin

O refrão pode ser entendido como um trocadilho, com a óbvia constatação de que as chances de sobrevivência para quem está na guerra são nulas:

Home, far away
From the war, a chance to live again
Home, far away
But the war, no chance to live again

Na sequência, a música continua pesada, com vocais bem agressivos de Bruce, narrando os horrores das batalhas em Passchendaele: a resistência feroz do exército alemão, a gigantesca dificuldade dos aliados em conseguir êxito e a quantidade assustadora de baixas, de ambos os lados:

The bodies of ours and our foes
The sea of death it overflows
In no man's land god only knows
Into jaws of death we go

Crucified as if on a cross
Allied troops they mourn their loss
German war propaganda machine
Such before has never been seen

Swear I heard the angels cry
Pray to god no more may die
So that people know the truth
Tell the tale of Paschendale

Seguindo, a canção deságua em uma melodia praticamente Hard em que as letras fazem uma reflexão sobre a natureza sádica humana enquanto o terror da guerra prossegue:

Cruelty has a human heart
Everyman does play his part
Terror of the men we kill
The human heart is hungry still

I stand my ground for the very last time
Gun is ready as I stand in line
Nervous wait for the whistle to blow
Rush of blood and over we go

Após isto, há o momento de dois solos de guitarra bem competentes, o primeiro de Murray e o segundo de Smith. Antes do terceiro solo, de Gers, uma estrofe que revela a miserável condição humana na estupidez que é uma batalha:

Blood is falling like the rain
It's crimson cloak unveils again
The sound of guns can't hide their shame
And so we die on Paschendale

Smith, Gers, Harris, Dickinson, McBrain e Murray
A canção retorna à ponte que precede o refrão, narrando com alguns detalhes as características da batalha de Passchendaele, como afirmado acima, uma guerra de trincheiras, com avanços praticamente inexistentes e uma quantidade assustadora de mortes:

Dodging shrapnel and barbed wire
Running straight at the cannon fire
Running blind as I hold my breath
Say a prayer symphony of death

As we charge the enemy lines
A burst of fire and we go down
I choke a cry but no-one hears
Fell the blood go down my throat

Depois de repetir o refrão algumas vezes, a música se encerra com a melancólica melodia inicial com versos com uma mensagem de conotação espiritual, prometendo o encontro de todos que morreram naquela batalha:

See my spirit on the wind
Across the lines beyond the hill
Friend and foe will meet again
Those who died at Paschendale

Em suas Memórias de 1938, o Primeiro Ministro britânico na época da Primeira Guerra Mundial, David Lloyd George, escreveu: “Passchendaele foi de fato um dos maiores desastres da guerra... Nenhum soldado de qualquer inteligência agora defende esta campanha sem sentido...”

Não existe um consenso entre os historiadores quanto ao número de mortos em Passchendaele. Na História Oficial, o brigadeiro-general J. E. Edmonds classificou as vítimas britânicas em 244.897 e escreveu que números alemães equivalentes não estavam disponíveis, estimando as perdas alemãs em 400.000. Mas há relatos de que o número de baixas britânicas teriam sido muito maiores e o de alemães, menores, por conta dos critérios adotados e da ausência de um número oficial de baixas pelo exército alemão. Contudo, algumas estimativas apontam entre 200 e 450 mil aliados mortos e de 217 a 400 mil vítimas alemãs.

A Primeira Guerra Mundial terminou, oficialmente, em 11 de novembro de 1918. É considerada também um dos conflitos mais mortais da história, com uma estimativa mortal de nove milhões de combatentes e sete milhões de civis, sendo vítimas, como resultado direto da guerra, enquanto genocídios e a pandemia de influenza (de 1918) causando outras 50 a 100 milhões de mortes em todo o mundo.


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