MARVIN GAYE - WHAT'S GOING ON

By Daniel Benedetti - julho 23, 2019



What's Going On” é uma canção do artista norte-americano Marvin Gaye, lançada em 1971 pela Tamla Records, uma subsidiária da lendária Motown. A faixa faz parte do clássico disco de Gaye, What's Going On, seu décimo primeiro trabalho, lançado em 1971. A música marcou a saída de Gaye do som característico da Motown para um material bem mais pessoal.


A canção foi composta por Marvin Gaye, Renaldo Benson e Al Cleveland.

A inspiração da música veio através de Renaldo ‘Obie’ Benson, o qual era membro do grupo vocal da Motown, Four Tops, depois que o ônibus da turnê do grupo chegou a Berkeley, em 15 de maio de 1969.

Enquanto esteve lá, Benson testemunhou a brutalidade e a violência policial no parque da cidade (People's Park) durante um protesto realizado por ativistas antiguerra no que foi saudado mais tarde como ‘Quinta-feira Sangrenta’ (em inglês, Bloody Thursday).

Incomodado com a situação, Benson falou com o autor Ben Edmonds que, ao ver aquilo, perguntou: “O que está acontecendo aqui?” (What is happening here?). E uma questão levou a outra. “Por que eles estão enviando crianças tão longe de suas famílias no exterior? Por que eles estão atacando seus próprios filhos nas ruas?”.

Chateado, Benson discutiu o que testemunhou com o amigo e compositor Al Cleveland, que por sua vez escreveu e compôs uma canção para refletir as preocupações de Renaldo, o qual queria dar a música para seu grupo, mas os outros membros do Four Tops a recusaram.

Marvin Gaye

Benson afirma que os seus companheiros acharam a faixa como “música de protesto”, embora o próprio Renaldo a considerasse uma canção sobre amor e compreensão.

Em 1970, Benson apresentou a música, sem título, para Marvin Gaye, que adicionou uma nova melodia e reviu a faixa ao seu gosto, adicionando suas próprias letras. Gaye a intitulou “What's Going On”.

Enquanto Gaye inicialmente achou que a melancolia da música seria apropriada para ser gravada pelo The Originals, Benson convenceu-o a gravá-la como sua própria música.

O próprio Gaye foi inspirado por males sociais ocorridos nos Estados Unidos, citando os tumultos de Watts (de 1965) como um ponto de virada em sua vida em que ele se perguntou: “Com o mundo explodindo ao meu redor, como eu deveria continuar cantando canções de amor?”.

Gaye também foi influenciado por conversas emocionais compartilhadas entre ele e seu irmão Frankie, o qual havia retornado de três anos de serviço na Guerra do Vietnã e pela morte de seu primo homônimo enquanto servia as tropas.

Durante as conversas telefônicas com o executivo Berry Gordy, que estava de férias nas Bahamas, na época, Gaye disse a Gordy que queria gravar um registro de protesto, ao qual Gordy disse em resposta: “Marvin, não seja ridículo. Isto está levando as coisas longe demais”.

É evidente que a letra da composição reflete todo o movimento de protesto e a imbecilidade que é uma guerra:

Mother, mother
There's too many of you crying
Brother, brother, brother
There's far too many of you dying
You know we've got to find a way
To bring some lovin' here today - Ya

Father, father
We don't need to escalate
You see, war is not the answer
For only love can conquer hate
You know we've got to find a way
To bring some lovin' here today

Picket lines and picket signs
Don't punish me with brutality
Talk to me, so you can see
Oh, what's going on
What's going on
Ya, what's going on
Ah, what's going on

In the mean time
Right on, baby
Right on
Right on

Father, father, everybody thinks we're wrong
Oh, but who are they to judge us
Simply because our hair is long
Oh, you know we've got to find a way
To bring some understanding here today
Oh

Picket lines and picket signs
Don't punish me with brutality
Talk to me
So you can see
What's going on
Ya, what's going on
Tell me what's going on
I'll tell you what's going on - Uh
Right on baby
Right on baby

Gaye entrou no estúdio de gravação, Hitsville USA, em 1º de junho de 1970, para gravar “What's Going On”. Em vez de confiar em outros produtores para ajudá-lo com a música, Gaye, inspirado pelos recentes sucessos de suas produções com o grupo vocal The Originals, decidiu produzir a música por conta própria, misturando músicos de estúdio originais da Motown, como James Jamerson e Eddie Brown, com músicos que ele mesmo recrutou.

Uma das capas do single

A linha de saxofone soprano de abertura, fornecida pelo músico Eli Fontaine, não foi originalmente planejada. Uma vez que Gaye ouviu o riff de Fontaine, ele lhe disse para ir para casa. Quando Fontaine protestou, afirmando que estava apenas brincando, Gaye respondeu: “você brinca delicadamente, obrigado”. A atmosfera descontraída no estúdio é atribuída ao uso constante de maconha por Gaye e outros músicos.

Jamerson foi puxado para a sessão depois que Gaye o localizou tocando com uma banda em um bar local. O respeitado arranjador e maestro da Motown, David Van De Pitte, disse, mais tarde, a Ben Edmonds que Jamerson “sempre guardou uma garrafa de Metaxa em sua caixa do baixo. Ele podia realmente tomar essa coisa, e então ainda sentar e tocar. Sua tolerância era incrível. Demorava muito para que ele fosse derrubado”.

Na noite em que Jamerson entrou no estúdio para gravar as linhas de baixo da música, o cara não conseguia se sentar direito em sua cadeira e, de acordo com um dos integrantes do Funk Brothers, ele se deitou no chão e tocou seus riffs de baixo. De Pitte lembrou que esta era uma faixa que Jamerson respeitava muito. Annie Jamerson lembra que quando ele voltou para casa, naquela noite, declarou que a música em que estava trabalhando era uma “obra-prima”, uma das poucas ocasiões em que havia discutido seu trabalho tão apaixonadamente com ela.

Gaye também adicionou sua própria instrumentação, tocando piano e teclados enquanto também tocava uma caixa de tambor, para ajudar a acentuar a bateria de Chet Forest.

Para adicionar mais à abordagem descontraída da música, Gaye convidou os jogadores do Detroit Lions, Mel Farr e Lem Barney, para o estúdio e, junto com ele e o Funk Brothers, acrescentaram uma conversa vocal, engajando-se em uma conversa simulada.

O músico e compositor Elgie Stover, que na época era um funcionário da Motown e confidente de Gaye, foi o homem que abriu a faixa com as palavras “hey, man, what's happening?” e “everything is everything”.

Gaye trouxe Lem Barney e Mel Farr, assim como Bobby Rogers, do The Miracles, para gravarem os backing vocals da música. As faixas de ritmo e os overdubs da música foram feitos em Hitsville, enquanto cordas, buzinas, vocais e backing vocals foram gravados no Golden World Studios.

Gaye, em 1971

Ao ouvir uma reprodução da música, Gaye pediu a seu engenheiro Kenneth Sands para lhe dar seus dois vocais principais para comparar qual ele queria usar para o lançamento da música. Sands acabou os misturando, por acidente. No entanto, quando ouviu, Gaye ficou tão impressionado com a dupla sensação, que ele o manteve, influenciando suas gravações posteriores, onde ele dominou o vocal ‘multicamadas’.

Antes de apresentar a música para Gordy, ele produziu um falso efeito fade in para a música, trazendo a canção de volta por alguns segundos depois de ter terminado. Gaye gravou o lado b do single, “God Is Love”, no mesmo dia.

Quando Berry Gordy ouviu a música na Califórnia, ele recusou o pedido de Gaye para liberá-la, dizendo-lhe que ele achava que era “a pior coisa que já ouvi na minha vida”. No momento em que outro executivo, Harry Balk, solicitou que a canção fosse lançada, Gordy disse a ele que a música apresentava “aquela coisa de Dizzy Gillespie no meio, que está se espalhando, é velha”.

Entretanto, Gaye respondeu a essa rejeição, recusando-se a gravar novo material, a menos que a faixa fosse liberada, entrando em greve até que, segundo ele, Gordy teve o bom senso de lançá-la.

Ansioso pelo produto de Marvin Gaye, Balk conseguiu que o vice-presidente de vendas da Motown, Barney Ales, liberasse a música, lançando-a em 17 de janeiro de 1971, enviando 100 mil cópias da música para estações de rádio em todo o país.

O sucesso inicial levou a mais 100 mil cópias para atender a demanda, vendendo mais de 200 mil cópias em uma semana.

A música foi lançada sem o conhecimento de Gordy e se tornou um enorme sucesso, alcançando o topo das paradas em um mês, em março daquele ano, permanecendo no número um da parada da Billboard R&B por cinco semanas e uma semana no número um da parada Cashbox pop.

Na principal parada norte-americana de singles, a Billboard Hot 100, alcançou a segunda posição, atrás de “Just My Imagination (Running Away with Me)”, do The Temptations, e de “Joy to the World”, do Three Dog Night.

A música acabou vendendo mais de dois milhões de cópias, tornando-se o single mais vendido da Motown na época. O sucesso da canção forçou Gordy a permitir que Gaye produzisse suas próprias canções, dando-lhe um ultimato para completar um álbum até o final de março, mais tarde resultando no disco What's Going On.

Capa do álbum

What's Going On” foi indicada para dois Prêmios Grammy em 1972, incluindo Best Male R&B Vocal Performance e Best Arrangement Accompanying Vocalist(s), mas não conseguiu vencer em nenhuma das categorias.

Em 2004 e 2010, “What's Going On” ficou em 4º lugar na lista da revista norte-americana Rolling Stone de As 500 Maiores Músicas de Todos os Tempos, tornando-se a canção mais bem posicionada mais de Marvin Gaye na lista.

Em 2016, a faixa foi votada em segundo lugar no 100 Melhores Músicas de Detroit, um projeto baseado no voto de especialistas em música e do público, conduzido pelo jornal Detroit Free Press.

Em 1999, os compositores Paul Gambaccini e Kevin Howlett listaram a música em 74º lugar na lista Songs of the Century, da BBC Radio 2. Em 2003, a revista Q colocou a música em 64º lugar de sua 1001 melhores músicas de todos os tempos. Também alcançou a 14ª posição nas 100 Maiores Canções de Rock de Todos os Tempos, do canal de TV VH1. Em março de 2012, o site britânico New Musical Express nomeou a música na 33ª colocação da lista Greatest 1970s.


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